Um texto achado na gaveta

Mexendo em meus papéis, descubro um texto que devo ter escrito há pelo menos dez anos, não sei em que data, mas certamente depois do lançamento do meu romance, “Risco de Vida” Editora Globo, 1995. O texto se refere ao processo de criação e me pareceu interessante incluí-lo aqui. Aí vai:

Um belo dia, você acorda de um bom sono para descobrir que seu melhor amigo morreu durante a noite, tragado por um vírus. (1) Se os dois estivessem além dos 70, seria parte do show. Não foi assim. Estavam ambos na casa dos 30, você e seu melhor amigo, confidente, companheiro de aventuras. Tanta coisa tinham a viver ainda, juntos e separados. Tantas promessas havia nele, um artista impar, radical.
É assim mesmo, dizem. A vida continua, dizem. Claro, continua. Mas não como antes. Segue mais pobre. Perde brilho, graça. Não pode piorar. Ah, não? Pois espere e verá. Aquele amigo que morreu foi o primeiro. Era vanguardista, lançador de tendências. Até na morte ficou na vanguarda. Nos anos seguintes outros amigos, diferentes, nem por isso menos importantes, também desaparecem tragados pelo vírus. Até um grande amor se esvai assim.
Com o tempo, você passa a se sentir esquisito. Órfão de amigos, das pessoas que o acompanharam a vida toda e deveria estar partilhando seu dia-a-dia. Você é um sobrevivente. É péssimo sobreviver à própria geração, saber que em alguma loteria maluca, aleatória, seu nome ainda não foi sorteado. Você é do tipo lógico, não religioso. E descobre, estranhamente espantando, que o mais provável é o fato( lógico, enfim) de que tudo isso, a vida, o universo e tudo mais não passa de um punhadode fenômenos que lança em nós, seres de exceção, pensantes, perguntas sem resposta.
Deve-se continuar, tocar em frente, sabe-se lá por quê. Mas o que fazer com os claros, as ausências, as saudades, os nomes que se tem de riscar da agenda? Como doem os nomes que se tem de riscar na agenda. Você se enterra no trabalho. Seria mais fácil se acreditasse em alguma coisa. Numa crença, numa idéia política. Não. Você só crê na enigmática existência da vida, do movimento universal, e percebe a infinita beleza/dor disso tudo. É um conceito elegante, moderno, mas traz pouco conforto em horas de dor.
Pensando que não há nada que possa ampará-lo, você se enterra no trabalho. Torna-se workaholic. Empenha-se, faz o melhor possível. Percebe que seu trabalho assalariado também não enche os claros. Conquista novos amigos, mas o fato de serem novos torna inda mais presente a memória dos antigos, que se foram. Pra não enlouquecer, você começa a escrever um romance. Nunca fez ficção antes. Não importa. Via escrever um romance, uma ficção inspirada na realidade dessas histórias, dessas perdas, desses jovens artistas que nos deixaram. Não entende por que tem de fazer isso. Só sabe que tem de fazer.
E faz. Em meio a muita agonia e exaltação. Em meio ao seu trabalho assalariado, que você não pode deixar. Levado por esse ímpeto doido da criação, torna-se obcecado. Não pensa em outra coisa. Não fala de outra coisa. Fica chato, monomaníaco, monocórdio. Inda bem que são bons esses novos amigos que você fez, ou eles teriam saído de perto correndo. Três anos você passa nesse processo. Escreve. Reescreve. Lê. Relê. Dá pros amigos lerem (sim, eles ainda têm que ler o que você escreveu no original, em prints de computador), dá a coisa por concluída, sai finalmente atrás de editora, tira a sorte grande, encontra uma que se interessa em editar o romance.
Em um outro belo dia você acorda de um sono inquieto para descobrir que se reequilibrou. Em algum momento desse longo caminho, voltou a encontrar seu eixo. Seguiu sua intuição mais profunda e percebe que fez a coisa certa. Não importa o que os leitores e a crítica vão achar do seu romance. Você sabe, do fundo de sua alma, que fez a coisa certa. Está plenamente vivo de novo. Continua órfão dos seus mortos. A saudade não se foi. Não irá nunca. Mas você vai viver com ela. Está inteiro. E percebe na própria pele que esse é o milagre da vida: a arte. Não, você ainda não se sente um artista. Tem de comer muito feijão, como dizia nossos pais, pra chegar lá.
Mas tocou a arte e sabe que ela cura. Criar é perceber que o princípio criador, que muitos conhecem com o nome de Deus, existe. E que é possível chegar perto dele. Pode ser a coisa mais complicada do mundo. E também a mais simples. Tudo está em aprender a ouvir e seguir a intuição. O caminho é cheio de riscos, ameaçador. Mas se você é tomado pela obsessão, se é invadido pelo furor da criação, as últimas coisas do mundo com que vai se preocupar são os riscos, as ameaças. Você cria, e quando cria, voa. Se é bom voar? Só quem já voou sabe.

Escrito por Alberto Guzik às 10h21

 

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