Um texto do Rodolfo

O diretor com quem mais venho trabalhando, Rodolfo García Vázquez, figura que amo, respeito e admiro, escreveu o texto abaixo em seu blog, www.DeOlhosSempreAbertos.zip.net. Fiquei muito emocionado. Por isso transcrevo-o aqui. Não por vaidade, que há muito deixei de ser vaidoso. Mas para expressar minha gratidão e afeto. Viva o teatro!

A estréia de Inocência – ou “As belas lições de Alberto Guzik”

Quando Ivam e eu fundamos Os Satyros, éramos inexperientes, mas sentíamos que queríamos interferir no mundo, fazer algo, através da arte.
Mas nossa ingenuidade nos levou a cometer muitos erros. Em um desses erros, ligamos uma vez para o Alberto Guzik, que era o grande crítico do teatro na época e dissemos ou pedimos algo, eu não sei muito bem o quê, que deve tê-lo irritado um pouco.
Na época, ele deu uma resposta sábia e que martelou na nossa cabeça durante muito tempo. Uma resposta que provavelmente na época não fosse algo muito especial para ele:
– Eu não quero brigar com vocês. Afinal não sei quem vocês vão ser no dia de amanhã.
Ironicamente, nós também não sabíamos quem ele seria no dia de amanhã. Foi uma bela aula de teatro.
Quinze anos depois, dividimos uma bela história com ele. Estamos defendendo projetos e idéias apaixonadamente e vivendo experiências incríveis juntos.
Alberto aceitou fazer Inocência sem ter texto algum a princípio. Seu personagem não iria dizer uma única palavra. Mesmo assim, ele aceitou fazer o espetáculo. Ele disse: “Não me importo. Quero fazer esse projeto porque acredito nele e acredito em vocês.” A humildade desse que é um dos maiores críticos que o Brasil já teve foi uma lição incrível…
Mas as lições não pararam por aí.
Ao final de Inocência, os personagens suicidas ficam todos nus ao final. E segundo a nossa leitura do texto da Dea, o Alberto seria um suicida que se entrega às mãos de sua própria mulher, que o mata. Ele seria, portanto, um dos suicidas nus. Colocamos a questão para ele. E ele, depois de uma reflexão curta e clara, aceitou o desafio. Num certo sentido, foi uma surpresa para nós ele ter aceito. Ver aquele crítico que parecia tão distante de nós no início da década de 90, mergulhar numa nudez plena de sentido poético é uma experiência emocionante. Algo que nunca vou esquecer. Algo que vai ficar na minha memória para sempre. Mais uma vez, ele nos ensinou uma lição inesquecível : aquele que ama verdadeiramente o teatro não se intimida diante de nada, nem diante das línguas ferinas de seus inimigos, nem dos desafios que o teatro constantemente nos coloca.
Sua nudez na última cena é a maior prova da paixão daqueles que amam o teatro acima de tudo.
Então ontem, mais um momento inesquecível. O Antunes Filho assistiu a estréia e foi para o camarim cumprimentar os atores. Alberto Guzik ainda estava nu, pois os atores tinham acabado de sair do palco. O espectador Antunes Filho (1) abraçou calorosamente o ator Alberto Guzik nu.
Se há trinta anos atrás alguém dissesse que um dia isso aconteceria, seria tomado como um louco delirante. Provavelmente nem mesmo os protagonistas dessa cena poderiam imaginá-la. Mas aconteceu, foi absolutamente real. Cena insólita, única, absoluta.
Afinal, como ele mesmo diz:
Nós nunca poderemos saber o dia de amanhã.

Escrito por Rodolfo às 14h23

Escrito por Alberto Guzik às 14h21

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