Estrangeiros

“Inocência” tem entre seus protagonistas dois imigrantes ilegais que sofrem todas as pressões que essa gente pode sofrer. Nos ensaios, temos falado muito sobre estrangeiros, sobre o que é ser estrangeiro. Lembrei daí que em meu romance, “Risco de Vida”, publicado pela Editora Globo em 1995 e praticamente invisível nas livrarias há muito tempo, há um trecho em que o protagonista, Thomas, vive, em sua cidade, uma situação de “estrangeiridade”. Vai aí:

O telefone tocou duas vezes. Avrum atendeu.
— Pai, bom dia.
— Como vai, filho?
— Tudo bem. — Thomas tentou imprimir um tom tranqüilo à voz. Não havia dito nada a Pola e Avrum sobre a doença de Cláudio. De início achara que seria mais fácil assim. Depois havia mudado de idéia, mas não soube como tocar no assunto. — Estou ligando porque. Bem. O senhor vai à sinagoga?
— Sim.
— Pensei que. Quer dizer. Posso ir junto?
Thomas não lembrava mais quando tinha entrado pela última vez numa sinagoga. Olhou em volta. O recinto estava semivazio no serviço de sábado. Dois velhos barbudos, vestidos de preto, junto do altar atapetado de vermelho, inclinavam-se para a frente e para trás enquanto liam nos rolos abertos sobre a mesa em cima do púlpito e salmodiavam uma prece em hebraico. A lingua melodiosa e gutural chocava-se, incompreendida, nos ouvidos de Thomas. Alguns fiéis acompanhavam o cantor. Em sua maior parte, velhos de caras vermelhas, narizes saltados. Mas havia também um punhado de jovens que seguiam o serviço atentos e compenetrados. Na galeria que circundava o piso inferior, umas poucas mulheres inclinavam-se sobre o parapeito. Pareciam menos interessadas na reza que no movimento dos homens, lá em baixo.
Avrum estava entre orgulhoso e envergonhado. Tinha o filho a seu lado, como sempre quisera. Mas aquele não era o filho que desejava. Nos últimos anos, diluíra-se a figura do judeu liberal que Thomas conhecera a vida toda. Cedera lugar a um digno herdeiro do jovem de família ortodoxa que deixara a Ucrânia na década de 30, rumo a um país tropical cujo nome não sabia pronunciar. Avrum voltara a freqüentar o serviço religioso nas noites de sexta e nas manhãs de sábado. Se ficou intrigado com o inesperado interesse de Thomas pelo ritual de seus ancestrais, não fez perguntas.
Oscilante, Avrum caminhou até o banco próximo do altar. Cumprimentou conhecidos com acenos dirigidos à esquerda e à direita. Thomas sentou-se num dos últimos bancos, perto da porta. Olhou em volta e perguntou-se o que fora fazer ali.
Fechou os olhos. O venerável edifício despertava nele antigas emoções. Naquele templo, menino assustado, segurara com força a mão do pai durante a solene oração vespertina do Yom Kippur, o Dia do Perdão, quando os judeus ortodoxos jejuavam. Naquele templo, pirralho de calças curtas, fora ao casamento de Paula. Naquele templo vira os três sobrinhos comemorarem os décimos terceiros aniversários e a maioridade religiosa, o bar-mitzvah que ele recusara.
Naquele templo sentia-se sempre distante, desajustado. Os judeus eram estrangeiros nas terras em que viviam. Thomas era estranho entre judeus, estrangeiro entre estrangeiros. Suspenso no ar, sem face. Um judeu assimilado, nunca à vontade cá ou lá. Que esperara encontrar voltando à sinagoga? Algum tipo de conforto? Algum milagre do deus judeu, do senhor do povo eleito? Seu coração não pertencia àquela gente. Confuso, inclinou a cabeça e pôs o rosto entre as mãos. Queria chorar.
— Vamos? — Avrum tocou seu ombro e olhou-o por trás das grossas lentes dos óculos, intrigado. Não se dera conta de que a reza havia acabado e os fiéis deixavam o velho prédio.

Saíram para a manhã clara. Desceram a escadaria, tomaram a rua Avanhandava, rumo à São Luís. Durante algum tempo, Avrum elogiou o hazan, o cantor que entoara a prece. Informou que viera da Argentina e valia seu peso em ouro. Outra sinagoga tentara contratá-lo, mas uma reação rápida da congregação impedira a transferência. O assunto morreu. Seguiram andando em silêncio. Na rua Martins Fontes, Avrum perguntou:
— Qual o problema, filho?
— Nada
— Você não vai me dizer que veio ao schill comigo só porque. Filho, eu te conheço. — Thomas não respondeu. Avrum não insistiu. — Vamos na padaria que a mamãe pediu coisas. — Pronnciava “mamâe” sem til, acentuava a abertura do “a”.
A padaria ficava na Martins Fontes. As paredes de ladrilhos brancos eram telas para pinturas com perspectiva torta. Avrum, carregando grande saco de papel, arrancou Thomas da contemplação das imagens.
— Vamos, filho?
— Dá que eu seguro o pacote.
— Não precisa. É leve. Filho?
— Sim.
— Queria te dizer que. Não importa o que te aflige, seja o que for, eu e a mamãe estamos do seu lado.
— Não tem nada errado, pai.
— Mesmo que tenha, filho. Queria dizer que você pode contar com a gente. Eu e a mamãe, nós somos seus pais, filho. Lhe amamos. — O sotaque pesado e a sintaxe trôpega eram comovedores. — Você nunca conta nada.
— Aprendi a não encher o saco dos outros com meus problemas.
— Mas nós somos seus pais. — Avrum calou-se e olhou-o, muito sério, as grossas lentes ampliando os olhos doentes. — Quer dizer que não estou enganado. Você está com problemas.
— Sim.
— E não quer falar?
— Não.
— Profissionais?
— Não. Pessoais.
— Muito sérios?
— Muito.
— E não quer falar?
— Não.
— Mas você sabe que pode contar com a gente?
— Sim, pai, eu sei. — Thomas passou o braço pelo ombro de Avrum. Ajudou o velho a atravessar a Consolação. Caminharam lentos romo à Sao Luís e ao apartamento, por certo perfumado pelos aromas do almoço.
— Mamãe fez creplach — informou Avrum, — orgulhoso.
— Dá tanto trabalho — reclamou Thomas, sem convicção. A confusão de seus sentimentos não o impediu de ficar com água na boca ante a lembrança dos pequenos raviólis recheados de frango. — Ela não devia. Ficou a manhã toda na cozinha?
— Não, passou a noite na cozinha. Mas e daí? Filho, ela faz por gosto, pra você e seus sobrinhos. Sabe que vocês gostam, que eu gosto. O que há de errado? O que se faz com amor não cansa. — Avrum olhou de trás da lentes grossas para Thomas. Só uma coisa, filho, se você quiser esconder seus problemas da mamãe, vai ter de se esforçar mais. Sua tristeza dá na vista. Vamos combinar uma coisa? Eu não vou dizer a Pola que você foi ao schill comigo. Senão ela vai ter insônia. Vai ser nosso segredo. Ok?
— Ok. Thomas sorriu. Olhou o pai com ternura.

Escrito por Alberto Guzik às 11h33

Novas, livros, filmes

Faz tanto tempo que não posto nada! Muito trabalho, muita leitura, muitos ensaios. Depois de estrear Risadas Gravadas, que ficou redondo, forte, muito bem defendido pelo elenco, voltei a dar aulas na escola do Wolf Maya e a ensaiar Inocência a todo vapor. Como se não bastasse, vou depois de amanhã pro Recife, pra participar de um seminário de crítica. Vida de jet setter é foda. Retorno na quinta, porque temos ensaios de “Inocência”, no sábado a volta de “A Vida na Praça Roosevelt” aos Satyros 1, e no domingo, às 15h, Ivam, Patrícia Aguille, eu e outras figuras leremos pela primeira vez a adaptação que Patrícia, a deusa loura, fez da “Juliette”, do Marquês de Sade, que vamos montar ano que vem. A leitura será no Centro Cultural São Paulo. Apareçam.
Filmes notáveis:
“Café da Manhã em Plutão”. Neil Jordan em plena forma e um ator notável, Cilian Murphy (guardem esse nome), além de uma trilha sonora extraordinária pela breguice e pelo acerto.
“Songs from the Secondo Floor”, filme sueco, de Roy Andersson, realizado em 2000, um pesadelo branco que influenciou Dea Loher na redação de “Inocência”. Se toparem com esse filme em alguma locadora de filmes de arte, vejam imediatamente. É assombroso e assombrador.
Livros: Depois de terminar o maravilhoso “O Terceiro Tiro”, aventura surrealista cruel, escrita pelo irlandês Flann O’Brien em 1933, estou saboreando aos poucos o estilo único de Truman Capote em “Os Cães Ladram”, feito de textos curtos sobre pessoas e lugares que o afetado e genial escritor conheceu ao longo da vida. E também estou me divertindo com “O Mochileiro das Estrelas”, de Douglas Adams. Adoro ficção científica, e nunca tinha lido esse clássico. Chegou a hora.
Mais livros: Estamos concluindo um livro sobre os Satyros, longo depoimento que Ivam e Rodolfo concederam a mim no primeiro semestre. Vai ser lançado em breve pela editora Imprensa Oficial.
Ufa!

Escrito por Alberto Guzik às 11h36

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