Dois espetáculos

Bom teatro em pequenos formatos. Nos últimos sete dias, dois espetáculos “de bolso” me deixaram muito impressionado. Semana passada vi “Três Paredes e Meia”, dramaturgia de Sérgio Pires (1) em cima do romance/relato/alucinação “Nossa Senhora das Flores”, de Jean Genet (2) , com direção de Emerson Rossini (3) . Em cartaz nos Satyros 2, o espetáculo de Rossini cria em cena uma cela na qual o prisioneiro, Genet, aguarda tanto o dia de sua audiência quanto a hora do banho de sol. Enquanto espera, fragmentos de sua obra e algumas de suas personagens o habitam. Um espetáculo pungente, rigorosamente belo e simples, com uma estupenda iluminação do mago Bonfanti (4) . Pedro Vieira (5)vive Genet com uma destreza corporal e um desenho de personagem(ns) que demonstram um ator mais que competente, um artista completo, pronto a enfrentar qualquer desafio. “Três Paredes e Meia desconcerta, incomoda e perturba. Emerson Rossini demonstra ter mão precisa, ousadia e bom gosto. Faz teatro do bom. Ontem, como não tivemos sessão de “A Vida Na Praça Roosevelt”, que fica em cartaz só até o fim de setembro, nos Satyros 1, fui ver “Pedras nos Bolsos”, texto da irlandesa Marie Jones (6) que ocupa o horário nobre do Crowne Plaza nos fins de semana. No elenco, Rubens Caribé (7)e Marco Antônio Pâmio (8). A peça fala de dois figurantes que, numa pequena vila irlandesa, participam de uma superprodução cinematográfica internacional, com diretor e atores vindos de Hollywood. Ao mesmo tempo, os dois figurantes se desdobram em diversos outros personagens, entre eles o diretor do filme e sua estrela. As trocas não são feitas por meio de figurinos ou adereços. Dependem apenas da destreza dos intérpretes. A montagem exige assim jogo de cintura, coisa que Pâmio e Caribé têm de sobra. O espetáculo, dirigido por Domingos Nunez (9), abre total espaço para os atores, que literalmente deitam e rolam. A platéia se diverte porque os dois se divertem em cena. E a peça vai além do trivial. Por meio da história de um jovem suicida (desde que comecei a ensaiar “Inocência’, tropeço com histórias de morte e suicídio a toda hora em meu cotidiano; e não sem razão), a peça faz uma critica acida do sistema e mostra de que modo as ações de um ser humano se entrelaçam no destino do outros. Um trabalho que tem de ser visto também. É bom sair feliz do teatro, né mesmo?

Escrito por Alberto Guzik às 13h43

 

  • Sérgio Pires. Ator, dramaturgo e diretor. Graduado emFilosofia pela UNIFAI. Durante seis anos integrou o Núcleo de Pesquisa Dramatúrgica e, durante três anos, o Núcleo de Estudos do Teatro Contemporâneo, ambos pela Escola Livre de Teatro de Santo André. Durante os anos de 2001 e 2002, integrou o núcleo de dramaturgos brasileiros em intercâmbio com o Royal Court Theatre de Londres.
  • Jean Genet (1910-1986). Dramaturgo, romancista, poeta, ensaista e ativista político francês. Passou o início da sua vida no submundo, cometeu crimes menores e passou temporadas preso. Os textos que começou a escrever na prisão o transformaram numa celebridade – e depois em um dos maiores autores franceses da segunda metade do século 20. Ainda que extremamente controverso, pela homossexualidade explícita, pela forma poética com que retrata o submundo e por suas posições políticas. Seus textos mais importantes são O Balcão, Os Negros, As Criadas e Os Biombos.
  • Emerson Rossini. Graduado em Direção Teatral pela E.C.A. – U.S.P. e atuação pela E.A.D. dirigiu “Heliópolis-Cidade Sol” de Airton Dupin (2012), “Resto de cerveja em copo transparente” (2010) , “Três paredes e meia” (2007) e “Cadência” (2006), textos de Sérgio Pires, “Vozes Familiares” de Harold Pinter (2005). Como ator na Cia. do Latão (2002 a 2006), Cia. Teatro de Narradores (2010/2011) entre outros.”
  • Guilherme Bonfanti. Teatropédia.
  • Pedro Vieira. Formado pelo Teatro Escola Macunaíma, estudou também na Escola Livre de Teatro de Santo André. Atuou em  “A Morta (Viva) de Oswald de Andrade e dir. de Luis Fernando Ramos, “Resto de cerveja em copo transparente” e “Três paredes e meia” de Sérgio Pires com direção de Emerson Rossini, “Apocalipse 1.11” de Fernando Bonassi e direção de Antonio Araújo. Em cinema atuou nos longas: “De cara limpa”, “Carandiru” , “Nina” e “Amanhã nunca mais”.
  • Marie Jones (1951) é uma das autoras mais importantes e mais profícuas a surgir no Norte da Irlanda. Nascida emBelfast, trabalhou muitos anos como atriz, antes de começar também a escrever. Escreveu, entre muitos outros, Lay Up Your Ends (1983), Oul’ Delf and False Teeth (1984), The Terrible Twins’ Crazy Christmas (1988), Weddin’s, Weein’s and Wakes (1989), The Hamster Wheel (1990), e The Blind Fiddler of Glenadauch (1990). Escreve tambem para a tv – e nunca deixou de trabalhar como atriz..
  • Rubens Caribé. Teatropédia.
  • Marco Antônio Pâmio. Teatropédia.
  • Domingos Nunez

Sábato Magaldi e sua dedicatória

“Teatro Sempre” é o nome do novo livro de Sábato Magaldi (1) lançado pela Editora Perspectiva. Sábato foi meu mestre. O crítico que li durante toda a adolescência, ao lado de Décio de Almeida Prado(2) . Achava os pontos de vista do Sábato mais modernos, mais afinados com o que eu queria, um teatro de desafios, de rupturas. Sempre foi um crítico refinado, agudo, certeiro. Acompanhei-o desde cedo. Primeiro como leitor do “Estado de S. Paulo” e do “Jornal da Tarde”, depois como aluno na EAD (3), como assistente nas aulas memoráveis da ECA (4) , e enfim como seu colega, indicado por ele, no “Jornal da Tarde”. Pois bem, Sábato, que hoje é integrante da Academia Brasileira de Letras e uma lenda viva da crítica e do teatro brasileiros, mandou-me seu livro novo, “Teatro Sempre”. A obra é editada pela Perspectiva, criada por Jacó Guinsburg (5) , outro de meus mestres, professor de rara perspicácia, que transformou sua editora em uma referência obrigatória para os estudantes de teatro que devemos ser a vida toda. “Teatro Sempre” é uma reunião de conferências e artigos que Sábato elaborou dos anos 80 para cá. Estão no livro a acuidade de sempre, a visão justa e aguda. Sábato é para mim símbolo de um tempo luminoso do teatro brasileiro, feito de sonhos que pareciam infinitos. Ele é aos meus olhos o crítico que melhor resume o espírito de esperança e otimismo que tomou o teatro no final dos anos 50, e, apesar da ditadura militar(6), se prolongou ao longo dos anos 60, até a decretação do AI5 (7), em 1968. Sábato foi o grande crítico do Arena (8), do Oficina (9), de Cacilda Becker (10), de Sérgio Cardoso (11), dos dramaturgos “novos”, que incluíam Nelson Rodrigues (12), Jorge Andrade (13), Ariano Suassuna (14). Tudo isso Sábato representa para mim.

E, causando em mim uma enorme emoção, Sábato Magaldi enviou-me seu livro com a seguinte dedicatória, que cometo a indiscrição de tornar pública (espero que o mestre não desaprove seu eterno discípulo), pela felicidade que meu causou:

“Ao Alberto

em quem me orgulho

de ter acreditado, o

abraço amigo do

Sábato Magaldi

São Paulo, setembro de 2006”

Obrigado mestre. O que aprendi com você (e não só com você; tive grandes professores e sei que tanto você quanto eu nos orgulhamos disso, de ver tanta gente boa que dedicou seu talento ao teatro) me acompanha até hoje e norteia minhas ações na cena ou fora dela.

Escrito por Alberto Guzik às 13h50

 

  • Sábato Magaldi . Teatropédia.
  • Décio de Almeida Prado. Teatropédia.
  • http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=cias_biografia&cd_verbete=633

http://www.eca.usp.br/ead/

 

 

 

(5) Jacó Guinsburg. (1921, Bessarábia, atual Moldávia) é um crítico de teatro, ensaísta e professor brasileiro, fundador de diretor da Editora Perspectiva, a mais importante editora na area de teatro. Tradutor e editor de mais de uma centena de importantes obras de estética, teoria e história das artes e do teatro, é o mais importante especialista em teatro russo e em língua iídiche no Brasil. Entre suas obras encontram-se Stanislavski e o Teatro de Arte de Moscou, Aventuras de uma Língua Errante – Ensaio de Literatura e Teatro Ídiche, Leone De Sommi: Um Judeu no Teatro da Renascença Italiana, Guia Histórico da Literatura Hebraica, Dicionário do Teatro Brasileiro, Diálogos Sobre Teatro, Stanislavski, Meierhold Cia & Ensaios de Teatro Russo, Semiologia do Teatro, Da Cena em Cena e inúmeros ensaios de estética e história do teatro, traduções e edição de várias obras sobre Diderot, Lessing, Buechner e Nietzsche. É editor das obras completas de Anatol Rosenfeld, importante crítico e teórico de teatro que viveu no Brasil depois da Segunda Guerra Mundial.

  • Ditadura Militar (1964-1985). Período histórico que vai do Golpe Militar de 1964 ( errôneamente conhecido como “Revolução de 64”) até a posse de José Sarney como presidente. Sarney, até pouco antes presidente do partido de sustentação da ditadura, foi vice de Tancredo Neves, eleito indiretamente presidente, mas que faleceu antes da posse. Foi um período de extremo arbítrio, quando a tortura virou política de Estado, milhares de pessoas foram torturadas e presas sem processo jurídico, centenas morreram. A censura atacou severamente todas as frentes da Cultura.
  • AI-5. Ato Institucional Número 5. Ato da Ditadura, promulgado em 13 de dezembro de 1968. Na prática, um golpe dentro do golpe militar, com a vitória da ala mais à direita.
  • Arena Teatropédia
  • Oficina Teatropédia
  • Cacilda Becker Teatropédia
  • Sergio Cardoso Teatropédia
  • Nelson Rodrigues Teatropédia
  • Jorge Andrade Teatropédia
  • Ariano Suassuna Teatropédia

 

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