{"id":257,"date":"2006-12-01T13:34:52","date_gmt":"2006-12-01T13:34:52","guid":{"rendered":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/?p=257"},"modified":"2022-05-12T13:37:32","modified_gmt":"2022-05-12T13:37:32","slug":"critica-de-inocencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/index.php\/2006\/12\/01\/critica-de-inocencia\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica de &#8220;Inoc\u00eancia&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Inoc\u00eancia, a dor de viver em estado latente<\/strong><\/p>\n<p>Pe\u00e7a de Dea Loher questiona sem cessar a raz\u00e3o de ser das pessoas e dos fatos &#8211; Mariangela Alves de lima<br \/>\nMais que dura, \u00e9 dur\u00edssima a vida levada a s\u00e9rio como o fazem as personagens de Dea Loher em Inoc\u00eancia. Na perspectiva da dramaturgia alem\u00e3 encenada pelo grupo Os S\u00e1tyros a dor de viver \u00e9 um estado latente, \u00e0 espera das oportunidades concretas de manifesta\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m fazem falta a algumas dessas personagens europ\u00e9ias o espa\u00e7o para viver confortavelmente, a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 vida e o respeito garantido pela lei, mas negado no foro \u00edntimo aos imigrantes africanos. Propulsores habituais da arte engajada esses motivos s\u00e3o freq\u00fcentes nos palcos de todo o mundo. Entre as artes o punho do teatro \u00e9 o primeiro a erguer-se e o \u00faltimo a abaixar. Mas n\u00e3o s\u00e3o por essas raz\u00f5es que se inquietam ou sofrem as figuras situadas em um campo dram\u00e1tico fragmentado em diversas ambienta\u00e7\u00f5es sociais e culturais. Nesta perspectiva os percal\u00e7os reais impelem para a marcha acelerada a atividade ps\u00edquica das personagens. Imigrantes africanos, jovens trabalhadores, casais de idade e ocupa\u00e7\u00e3o indefinida e a massa embrutecida de automobilistas urbanos formam um conjunto que se movimenta questionando sem cessar, e em diferentes n\u00edveis de linguagem, a raz\u00e3o de ser das pessoas e dos acontecimentos.<\/p>\n<p>Teriam deixado de fazer algo bom dois africanos em situa\u00e7\u00e3o legal irregular e a consci\u00eancia da omiss\u00e3o \u00e9 um tormento perene. Para a velha militante de esquerda o saldo, tudo o que restou do projeto ut\u00f3pico, \u00e9 o autoritarismo. Um casal vitimado pela viol\u00eancia n\u00e3o sabe reagir porque a resigna\u00e7\u00e3o pac\u00edfica inculcada na cultura alem\u00e3 do p\u00f3s-guerra como forma de expia\u00e7\u00e3o impede-os agora de reivindicar justi\u00e7a ou mudar a ordem habitual das coisas. Essas e outras figuras da pe\u00e7a est\u00e3o plantadas em um solo de valores inst\u00e1veis, impregnadas de desconfian\u00e7a e \u00e0 espera de uma ordem laica ou sagrada que d\u00ea um sentido ao curso das respectivas exist\u00eancias. Como abertura e fecho dram\u00e1tico a hip\u00f3tese do suic\u00eddio acena no horizonte da pe\u00e7a.<\/p>\n<p>No entanto a atmosfera sinistra, retomando no novo s\u00e9culo temas do teatro europeu do p\u00f3s-guerra, n\u00e3o tem a mesma espessura neste texto contempor\u00e2neo. Ainda que uma personagem afirme, com ironia, que &#8216;a cria\u00e7\u00e3o de um sentido eu deixo com prazer para os pol\u00edticos&#8217;, h\u00e1 uma tarefa reservada para a arte que n\u00e3o \u00e9 de todo ingl\u00f3ria. Acabaram-se os sistemas, as vis\u00f5es panor\u00e2micas s\u00e3o constantemente amea\u00e7adas pelo subjetivismo e pelo relativismo que p\u00f4s a pique a moral do livre arb\u00edtrio e, sendo assim, a arte n\u00e3o poderia propor, sob pena de fracassar esteticamente, uma nova ordem. Contudo, resta o campo da sensibilidade art\u00edstica apostando &#8216;na conting\u00eancia, nos acasos, nos caros, nos imponder\u00e1veis que se imp\u00f5em&#8230;&#8217;. E \u00e9 esse campo, das coisas aparentemente pequenas, que a pe\u00e7a de Dea Loher procura mimetizar.<\/p>\n<p>Incidentes de significa\u00e7\u00e3o m\u00ednima na hierarquia de valores consagrados s\u00e3o invocados para conferir peso metaf\u00f3rico \u00e0 representa\u00e7\u00e3o porque deles derivam sentimentos e pensamentos que convergem para o enigma que atormenta todos e cada um. A qualifica\u00e7\u00e3o estil\u00edstica dos incidentes varia do grotesco ao l\u00edrico, mas todos s\u00e3o de fundo irracional e de ineg\u00e1vel efeito teatral. H\u00e1 a mulher que esconde polidamente sob a mesa a repulsa e o desespero, o homem que coleciona caix\u00f5es, outro que cria j\u00f3ias para &#8216;embelezar o mundo&#8217; e at\u00e9 a oferenda de sombrinha cheia de flores que o mar devolve. Tramados a esses acontecimentos simb\u00f3licos de resson\u00e2ncia po\u00e9tica h\u00e1 falas descritivas de estados an\u00edmicos em que as personagens tanto podem falar na primeira pessoa como se referir a si mesmas por meio de um relato impessoal. Dessa forma h\u00e1, ao mesmo tempo, uma a\u00e7\u00e3o interior e uma explica\u00e7\u00e3o distanciada, intencionalmente s\u00f3bria, da experi\u00eancia emotiva.<\/p>\n<p>Dirigido por Rodolfo Garc\u00eda V\u00e1squez o espet\u00e1culo entrela\u00e7a com equil\u00edbrio e muita inventividade as met\u00e1foras po\u00e9ticas e a observa\u00e7\u00e3o do psiquismo, dois termos cuja altern\u00e2ncia \u00e9 a constante da pe\u00e7a. Uma vez que embates dial\u00f3gicos t\u00eam pouca import\u00e2ncia &#8211; quase todas as figuras s\u00e3o ilhas &#8211; \u00e9 preciso diversificar e tornar atraente cenicamente um desfile de quase mon\u00f3logos. Em vez de cortes ou caracteriza\u00e7\u00f5es de fundo realista para distinguir as cenas e personagens, a encena\u00e7\u00e3o situa os diversos ambientes e epis\u00f3dios em um mesmo fundo escuro e indistinto. Todas as cenas se definem lentamente por meio de efeitos de luz, mas continuam cercadas por uma zona difusa onde se preparam outros encadeamentos. N\u00e3o h\u00e1 pieguice nas interpreta\u00e7\u00f5es e apenas no primeiro di\u00e1logo entre os africanos percebemos a tenta\u00e7\u00e3o da autopiedade. Ainda assim, respeitando a austeridade da pe\u00e7a, o espet\u00e1culo parece menos cruel porque se det\u00e9m sobre o ins\u00f3lito, valoriza a imagem surpreendente e, ao minimizar caracteriza\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas (onde a vincula\u00e7\u00e3o com a realidade da Alemanha \u00e9 n\u00edtida), dissolve o tempo e o espa\u00e7o de tal modo que o suic\u00eddio nos parece mais uma tenta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do que um dado estat\u00edstico.<br \/>\n(SERVI\u00c7O) Inoc\u00eancia. 120 min. 14 anos. Espa\u00e7o dos Satyros Um (70 lug.). Pra\u00e7a Roosevelt, 214, 3258-6345. 5.\u00aa a s\u00e1b., 21 h; dom., 20h30. R$ 25. At\u00e9 17\/12<\/p>\n<p>O ESTADO DE S.PAULO, 1 de dezembro de 2006.<br \/>\nEscrito por Alberto Guzik \u00e0s 15h51<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Stanisl\u00e1vski e o ator<\/strong><\/p>\n<p>O grande Konstantin Alex\u00eaiev, que todos conhecemos como Stanisl\u00e1vski (1), o primeiro formulador contempor\u00e2neo de um m\u00e9todo para nortear a cria\u00e7\u00e3o do ator, estabeleceu um marco na hist\u00f3ria do teatro. Tem gente pr\u00f3 e contra, mas seu vulto e sua import\u00e2ncia permanecem indiscut\u00edveis. E a vis\u00e3o \u00e9tica que ele nos proporcionou do trabalho do ator \u00e9 at\u00e9 hoje um norte. Eis alguns de seus princ\u00edpios:<br \/>\n&#8220;N\u00e3o h\u00e1 pequenos pap\u00e9is, mas s\u00f3 pequenos atores.&#8221;<br \/>\n&#8220;O artista deve amar a arte em si mesma e n\u00e3o a si mesmo na arte.&#8221;<br \/>\n&#8220;O ator deve ser hoje Hamlet e amanh\u00e3 um coadjuvante, mas e at\u00e9 como coadjuvante deve ser um artista.&#8221;<br \/>\n&#8220;O poeta, o ator, o cen\u00f3grafo, o costureiro e o contra-regra, todos servem a um s\u00f3 objetivo, posto pelo poeta em sua pe\u00e7a.&#8221;<br \/>\n&#8220;Atraso, pregui\u00e7a, histeria, m\u00e1 vontade, ignor\u00e2ncia do papel, necessidade de repetir tudo duas vezes s\u00e3o igualmente prejudiciais ao conjunto e devem ser erradicados.&#8221;<br \/>\nEu concordo com Stanisl\u00e1vski em g\u00eanero, n\u00famero e grau. Certas coisas s\u00e3o verdade sempre, e essas regras devem servir ao teatr\u00e3o mais convencional e \u00e0 pesquisa mais descabeladamente inovadora.<br \/>\nFonte: &#8220;Stanisl\u00e1vski e o Teatro de Arte de Moscou&#8221;, J. Guinsburg, Ed. Perspectiva<\/p>\n<p>Escrito por Alberto Guzik \u00e0s 16h17<\/p>\n<p>(1) Stanisl\u00e1vski <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Constantin_Stanislavski\">http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Constantin_Stanislavski<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inoc\u00eancia, a dor de viver em estado latente Pe\u00e7a de Dea Loher questiona sem cessar a raz\u00e3o de ser das pessoas e dos fatos &#8211; Mariangela Alves de lima Mais que dura, \u00e9 dur\u00edssima a vida levada a s\u00e9rio como o fazem as personagens de Dea Loher em Inoc\u00eancia. 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