{"id":242,"date":"2006-11-21T14:54:33","date_gmt":"2006-11-21T14:54:33","guid":{"rendered":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/?p=242"},"modified":"2022-01-27T14:55:47","modified_gmt":"2022-01-27T14:55:47","slug":"um-texto-achado-na-gaveta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/index.php\/2006\/11\/21\/um-texto-achado-na-gaveta\/","title":{"rendered":"Um texto achado na gaveta"},"content":{"rendered":"<p>Mexendo em meus pap\u00e9is, descubro um texto que devo ter escrito h\u00e1 pelo menos dez anos, n\u00e3o sei em que data, mas certamente depois do lan\u00e7amento do meu romance, \u201cRisco de Vida\u201d Editora Globo, 1995. O texto se refere ao processo de cria\u00e7\u00e3o e me pareceu interessante inclu\u00ed-lo aqui. A\u00ed vai:<\/p>\n<p>Um belo dia, voc\u00ea acorda de um bom sono para descobrir que seu melhor amigo morreu durante a noite, tragado por um v\u00edrus. (1) Se os dois estivessem al\u00e9m dos 70, seria parte do show. N\u00e3o foi assim. Estavam ambos na casa dos 30, voc\u00ea e seu melhor amigo, confidente, companheiro de aventuras. Tanta coisa tinham a viver ainda, juntos e separados. Tantas promessas havia nele, um artista impar, radical.<br \/>\n\u00c9 assim mesmo, dizem. A vida continua, dizem. Claro, continua. Mas n\u00e3o como antes. Segue mais pobre. Perde brilho, gra\u00e7a. N\u00e3o pode piorar. Ah, n\u00e3o? Pois espere e ver\u00e1. Aquele amigo que morreu foi o primeiro. Era vanguardista, lan\u00e7ador de tend\u00eancias. At\u00e9 na morte ficou na vanguarda. Nos anos seguintes outros amigos, diferentes, nem por isso menos importantes, tamb\u00e9m desaparecem tragados pelo v\u00edrus. At\u00e9 um grande amor se esvai assim.<br \/>\nCom o tempo, voc\u00ea passa a se sentir esquisito. \u00d3rf\u00e3o de amigos, das pessoas que o acompanharam a vida toda e deveria estar partilhando seu dia-a-dia. Voc\u00ea \u00e9 um sobrevivente. \u00c9 p\u00e9ssimo sobreviver \u00e0 pr\u00f3pria gera\u00e7\u00e3o, saber que em alguma loteria maluca, aleat\u00f3ria, seu nome ainda n\u00e3o foi sorteado. Voc\u00ea \u00e9 do tipo l\u00f3gico, n\u00e3o religioso. E descobre, estranhamente espantando, que o mais prov\u00e1vel \u00e9 o fato( l\u00f3gico, enfim) de que tudo isso, a vida, o universo e tudo mais n\u00e3o passa de um punhadode fen\u00f4menos que lan\u00e7a em n\u00f3s, seres de exce\u00e7\u00e3o, pensantes, perguntas sem resposta.<br \/>\nDeve-se continuar, tocar em frente, sabe-se l\u00e1 por qu\u00ea. Mas o que fazer com os claros, as aus\u00eancias, as saudades, os nomes que se tem de riscar da agenda? Como doem os nomes que se tem de riscar na agenda. Voc\u00ea se enterra no trabalho. Seria mais f\u00e1cil se acreditasse em alguma coisa. Numa cren\u00e7a, numa id\u00e9ia pol\u00edtica. N\u00e3o. Voc\u00ea s\u00f3 cr\u00ea na enigm\u00e1tica exist\u00eancia da vida, do movimento universal, e percebe a infinita beleza\/dor disso tudo. \u00c9 um conceito elegante, moderno, mas traz pouco conforto em horas de dor.<br \/>\nPensando que n\u00e3o h\u00e1 nada que possa ampar\u00e1-lo, voc\u00ea se enterra no trabalho. Torna-se workaholic. Empenha-se, faz o melhor poss\u00edvel. Percebe que seu trabalho assalariado tamb\u00e9m n\u00e3o enche os claros. Conquista novos amigos, mas o fato de serem novos torna inda mais presente a mem\u00f3ria dos antigos, que se foram. Pra n\u00e3o enlouquecer, voc\u00ea come\u00e7a a escrever um romance. Nunca fez fic\u00e7\u00e3o antes. N\u00e3o importa. Via escrever um romance, uma fic\u00e7\u00e3o inspirada na realidade dessas hist\u00f3rias, dessas perdas, desses jovens artistas que nos deixaram. N\u00e3o entende por que tem de fazer isso. S\u00f3 sabe que tem de fazer.<br \/>\nE faz. Em meio a muita agonia e exalta\u00e7\u00e3o. Em meio ao seu trabalho assalariado, que voc\u00ea n\u00e3o pode deixar. Levado por esse \u00edmpeto doido da cria\u00e7\u00e3o, torna-se obcecado. N\u00e3o pensa em outra coisa. N\u00e3o fala de outra coisa. Fica chato, monoman\u00edaco, monoc\u00f3rdio. Inda bem que s\u00e3o bons esses novos amigos que voc\u00ea fez, ou eles teriam sa\u00eddo de perto correndo. Tr\u00eas anos voc\u00ea passa nesse processo. Escreve. Reescreve. L\u00ea. Rel\u00ea. D\u00e1 pros amigos lerem (sim, eles ainda t\u00eam que ler o que voc\u00ea escreveu no original, em prints de computador), d\u00e1 a coisa por conclu\u00edda, sai finalmente atr\u00e1s de editora, tira a sorte grande, encontra uma que se interessa em editar o romance.<br \/>\nEm um outro belo dia voc\u00ea acorda de um sono inquieto para descobrir que se reequilibrou. Em algum momento desse longo caminho, voltou a encontrar seu eixo. Seguiu sua intui\u00e7\u00e3o mais profunda e percebe que fez a coisa certa. N\u00e3o importa o que os leitores e a cr\u00edtica v\u00e3o achar do seu romance. Voc\u00ea sabe, do fundo de sua alma, que fez a coisa certa. Est\u00e1 plenamente vivo de novo. Continua \u00f3rf\u00e3o dos seus mortos. A saudade n\u00e3o se foi. N\u00e3o ir\u00e1 nunca. Mas voc\u00ea vai viver com ela. Est\u00e1 inteiro. E percebe na pr\u00f3pria pele que esse \u00e9 o milagre da vida: a arte. N\u00e3o, voc\u00ea ainda n\u00e3o se sente um artista. Tem de comer muito feij\u00e3o, como dizia nossos pais, pra chegar l\u00e1.<br \/>\nMas tocou a arte e sabe que ela cura. Criar \u00e9 perceber que o princ\u00edpio criador, que muitos conhecem com o nome de Deus, existe. E que \u00e9 poss\u00edvel chegar perto dele. Pode ser a coisa mais complicada do mundo. E tamb\u00e9m a mais simples. Tudo est\u00e1 em aprender a ouvir e seguir a intui\u00e7\u00e3o. O caminho \u00e9 cheio de riscos, amea\u00e7ador. Mas se voc\u00ea \u00e9 tomado pela obsess\u00e3o, se \u00e9 invadido pelo furor da cria\u00e7\u00e3o, as \u00faltimas coisas do mundo com que vai se preocupar s\u00e3o os riscos, as amea\u00e7as. Voc\u00ea cria, e quando cria, voa. Se \u00e9 bom voar? S\u00f3 quem j\u00e1 voou sabe.<\/p>\n<p>Escrito por Alberto Guzik \u00e0s 10h21<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mexendo em meus pap\u00e9is, descubro um texto que devo ter escrito h\u00e1 pelo menos dez anos, n\u00e3o sei em que data, mas certamente depois do lan\u00e7amento do meu romance, \u201cRisco de Vida\u201d Editora Globo, 1995. O texto se refere ao processo de cria\u00e7\u00e3o e me pareceu interessante inclu\u00ed-lo aqui. 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