{"id":224,"date":"2006-10-05T20:02:15","date_gmt":"2006-10-05T20:02:15","guid":{"rendered":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/?p=224"},"modified":"2021-10-27T20:03:52","modified_gmt":"2021-10-27T20:03:52","slug":"uma-apresentacao-muito-pessoal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/index.php\/2006\/10\/05\/uma-apresentacao-muito-pessoal\/","title":{"rendered":"Uma Apresenta\u00e7\u00e3o Muito Pessoal"},"content":{"rendered":"<p>Terminei faz pouco o livro &#8220;Cia de Teatro Os Satyros: Um Palco Visceral&#8221;, que a Imprensa Oficial deve publicar em breve. Aqui vai (em quatro partes!) a apresenta\u00e7\u00e3o que escrevi para o livro.<br \/>\nNo momento em que escrevo estas linhas completo uma conviv\u00eancia \u00edntima e di\u00e1ria de dois anos e nove meses com a Cia. de Teatro Os Satyros. Foi em janeiro de 2004 que seus fundadores, Rodolfo Garc\u00eda V\u00e1zquez e Ivam Cabral, me convidaram para integrar o elenco da trupe, que eles formaram em S\u00e3o Paulo, em 1989. Depois de um afastamento que durou a breve eternidade de 36 anos, eu havia voltado a trabalhar como ator em setembro de 2003, na produ\u00e7\u00e3o O Hor\u00e1rio de Visita, bel\u00edssimo drama do muito talentoso S\u00e9rgio Roveri. Ivam assistiu a um ensaio aberto do espet\u00e1culo, e sua opini\u00e3o certamente generosa sobre as minhas reemergentes possibilidades como ator deve ter pesado na decis\u00e3o de Rodolfo, que no finzinho daquele ano disparou um telefonema para minha casa e me chamou para conversar.<br \/>\nMarcamos uma conversa. Quando sa\u00ed daquele encontro, em dezembro, realizado num fim de tarde na sala da Pra\u00e7a Roosevelt, n.\u00ba 214, eu era mais um integrante de um gigantesco elenco que atuaria em Kaspar. E estava informado de que iniciar\u00edamos os ensaios no dia 15 de janeiro de 2004.<br \/>\nVale anotar que por uma dessas coincid\u00eancias do destino, se \u00e9 que coincid\u00eancias existem, naquele tempo mor\u00e1vamos, Rodolfo, Ivam e eu, no mesmo pr\u00e9dio, numa rua no bairro de Cerqueira C\u00e9sar, n\u00e3o muito distante do teatro. A vizinhan\u00e7a de quase tr\u00eas anos n\u00e3o trouxe consigo uma amizade afoita ou bisbilhoteira. Poucas vezes nos v\u00edamos, fora do teatro, que eu freq\u00fcentava por prazer e por dever de of\u00edcio, j\u00e1 que ent\u00e3o era cr\u00edtico do Jornal da Tarde, jornal ainda hoje circulante, n\u00e3o sendo mais que uma saudosa e melanc\u00f3lica mem\u00f3ria do que foi um dia: exemplo de jornalismo atuante, corajoso, ousado, criador de tend\u00eancias.<br \/>\nAinda que Rodolfo, Ivam e eu n\u00e3o fossemos de grandes intimidades, nossa vizinhan\u00e7a era agrad\u00e1vel, uma conviv\u00eancia de gente que se admira e se respeita e se quer bem. Depois que iniciei meu processo de retorno \u00e0 arena da interpreta\u00e7\u00e3o e comecei a ensaiar O Hor\u00e1rio de Visita, algumas vezes, quando nos encontr\u00e1vamos na garagem ou no elevador, eu brincava: \u201cAinda vamos trabalhar juntos\u201d. A brincadeira virou coisa s\u00e9ria quando se iniciaram os ensaios de Kaspar, ou A Triste Hist\u00f3ria do Pequeno Rei do Infinito Preso em sua Casca de Noz, a pe\u00e7a do elenco gigantesco. Eram 28 atores em cena.<br \/>\nDe l\u00e1 para c\u00e1, os Satyros me proporcionaram um leque de experi\u00eancias que dificilmente eu encontraria em outra companhia. Participei como ator de quatro produ\u00e7\u00f5es da trupe: Kaspar e Transex, ambas com textos urgentes, instigantes e radicais de Rodolfo V\u00e1zquez, A Vida na Pra\u00e7a Roosevelt, genial painel da vida no centro de S\u00e3o Paulo desenhado pela alem\u00e3 Dea Loher (que acaba de ter sua obra agraciada com o Pr\u00eamio Bertolt Brecht, um dos mais prestigiosos e importantes da Alemanha, hoje), e Joana Evangelista, provocadora obra da libert\u00e1ria e militante Vange Leonel (1). Nesse mesmo per\u00edodo, dirigi, na sala que hoje leva o nome de Espa\u00e7o dos Satyros 1, O Encontro das \u00c1guas e De Alma Lavada, de S\u00e9rgio Roveri, produ\u00e7\u00f5es independentes que n\u00e3o teriam visto a luz dos refletores se n\u00e3o fosse a parceria generosa estabelecida com os Satyros, e O C\u00e9u \u00c9 Cheio dos Uivos, Latidos e F\u00faria dos C\u00e3es da Pra\u00e7a Roosevelt, de Jarbas Capusso, uma produ\u00e7\u00e3o da companhia.<br \/>\nAl\u00e9m disso, encarregado de dar aulas para o N\u00facleo Experimental dos Satyros, coordenei as montagens de dois trabalhos dos oficineiros da companhia: R. Taylor, n.\u00ba 214, que esteve em cartaz em 2005, e Vestir o Corpo de Espinhos, que entrar\u00e1 brevemente em cena. E tamb\u00e9m disse presente como ator ou depoente ou mestre de cerim\u00f4nias em muitos eventos promovidos pelos Satyros: leituras dram\u00e1ticas, mesas redondas, encontros culturais, e, last but not least, as Satyrianas (2). Coube-me ainda a deliciosa honra de ser o apresentador do Show de Boate, um dos mais transgressivos projetos em curso no seio de uma companhia transgressiva e visceral pela pr\u00f3pria natureza. E como as coisas n\u00e3o param de acontecer no teatro da Pra\u00e7a Roosevelt, neste momento participo como co-diretor de uma nova produ\u00e7\u00e3o da trupe, que ser\u00e1 desenhada a quatro m\u00e3os, por Ivam Cabral e por mim. Como sempre, a busca da visceralidade e da ousadia nos norteiam, e assim a nova montagem ser\u00e1 uma adapta\u00e7\u00e3o de Juliette, de Sade, que ter\u00e1 a exuberante e talentosa Patr\u00edcia Aguille (3)no papel-t\u00edtulo.<br \/>\nO leitor h\u00e1 de perdoar que eu encaminhe este texto para uma mem\u00f3ria de meu trajeto pessoal na companhia e elabore uma lista dos trabalhos que realizei l\u00e1 ou que ainda vou realizar. Acontece que essa rela\u00e7\u00e3o vem a ser justamente minha credencial para escrever sobre a trupe. Claro que o presente livro n\u00e3o se limitar\u00e1 ao que tenho visto e vivido nesses dois anos e pedra de intensa produ\u00e7\u00e3o. Os quase 17 anos de vida dos Satyros, evidentemente, ser\u00e3o o objeto do volume. Mas sou for\u00e7ado a come\u00e7ar do momento presente, elaborando meu depoimento sobre as realiza\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos anos, sobre o que venho vendo e vivendo l\u00e1.<br \/>\nQuem hoje acompanha a atividade das duas salas administradas pelos Satyros na Pra\u00e7a Roosevelt fica impressionado pela quantidade e qualidade dos trabalhos em cartaz. Apostando em jovens diretores e dramaturgos, em novos atores ou em int\u00e9rpretes veteranos, buscando talentos em bairros da periferia, a companhia d\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o de dinamismo, de vitalidade, de energia, que contrastam espantosamente com o marasmo e a mesmice da programa\u00e7\u00e3o de tantas outras salas da cidade. Os dois Espa\u00e7os dos Satyros est\u00e3o hoje entre os principais basti\u00f5es do teatro independente paulistano. Os espet\u00e1culos se sucedem de segunda a domingo, em alguns casos com duas ou tr\u00eas produ\u00e7\u00f5es diversas revezando-se na mesma sala, uma ciranda vertiginosa que atrai um n\u00famero crescente de espectadores.<br \/>\nAo mesmo tempo que eu mergulhava na cria\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos e eventos, pude testemunhar a transforma\u00e7\u00e3o que os Satyros propiciaram ao seu entorno, a combalida e decr\u00e9pita Pra\u00e7a Roosevelt. Outrora um centro de cinemas de arte e bares e restaurantes elegantes, ela estava, em fins dos anos 90, transformada em reduto de traficantes, pequenos marginais, garotos de programa. Al\u00e9m de uma fauna que inclu\u00eda transexuais, travestis, prostitutas, mendigos de todo tipo e cidad\u00e3os de classe m\u00e9dia, que ocupam os v\u00e1rios edif\u00edcios residenciais que formam um pared\u00e3o \u00e0 esquerda da Igreja da Consola\u00e7\u00e3o. Era um lugar que n\u00e3o se podia atravessar \u00e0 noite sem receio. Desde que ocuparam o n.\u00ba 214 da pra\u00e7a, no in\u00edcio do s\u00e9culo 21, os Satyros criaram ali um movimento cultural que iluminou a \u00e1rea, tornou-a vis\u00edvel, intensamente freq\u00fcentada por artistas, espectadores, jornalistas, intelectuais, escritores. Dos antigos freq\u00fcentadores do local, os traficantes se afastaram, e os travestis e transexuais s\u00e3o reconhecidos como habitantes da \u00e1rea, incorporados ao cen\u00e1rio local. A Pra\u00e7a Roosevelt hoje \u00e9 um exerc\u00edcio de cultura e de democracia, constru\u00edda dia a dia com grande dificuldade.<br \/>\nN\u00e3o quero deixar aqui um registro que se limite ao meu pensamento sobre a import\u00e2ncia est\u00e9tica, po\u00e9tica e pol\u00edtica da Cia. dos Satyros. Creio que o pr\u00f3prio fato de eu haver aceito o convite de Rodolfo e Ivam para atuar em Kaspar e de ter permanecido como um membro intensamente atuante da trupe depois do fim da carreira daquele espet\u00e1culo serve como testemunho da import\u00e2ncia, da relev\u00e2ncia que atribuo ao grupo da Pra\u00e7a Roosevelt. Acho mais proveitoso registrar algo da minha vis\u00e3o do processo de trabalho que se desenvolve l\u00e1. N\u00e3o posso dar conta de todo o espectro de a\u00e7\u00f5es dos Satyros e de sua hist\u00f3ria; isso seria pretens\u00e3o. Como querer embutir \u00e0 for\u00e7a no pref\u00e1cio o assunto do volume todo. Mas creio que ser\u00e1 \u00fatil, para concluir estas linhas, lan\u00e7ar no papel algumas observa\u00e7\u00f5es que venho recolhendo sobre o cotidiano do trabalho do grupo.<br \/>\nUma cena totalmente satyriana me acorre \u00e0 mem\u00f3ria. Novembro ou dezembro de 2005. Data de um evento fixado pela Prefeitura, a Virada Cultural (4), que manteve atividades em v\u00e1rios pontos da cidade durante 24 horas. (\u00c9 preciso assinalar que os idealizadores dessa Virada certamente se inspiraram nas Satyrianas, projeto que a companhia promove anualmente, nos fim de setembro e come\u00e7o de outubro, no qual realiza, durante 76 horas ininterruptas, espet\u00e1culos, debates, encontros, palestras e performances, que se estendem do crep\u00fasculo de quinta-feira at\u00e9 a meia-noite de domingo, com extraordin\u00e1ria aflu\u00eancia de espectadores.) Os Satyros participaram da Virada Cultural com a apresenta\u00e7\u00e3o, na madrugada de domingo, de uma performance realizada ao redor do livro O Mist\u00e9rio das Bolas de Gude, do colunista Gilberto Dimenstein (5), da Folha de S. Paulo.<br \/>\nPara essa performance foram reunidos o elenco dos Satyros, um grupo de atores do Centro Cultural do Jardim Pantanal e um trio de cantoras\/instrumentistas lindas e talentosas. Tivemos muito pouco tempo para ensaiar a performance. Mas em quest\u00e3o de dias Rodolfo V\u00e1zquez alinhavou id\u00e9ias e criou um projeto que dava conta dos aspectos essenciais do livro. No s\u00e1bado em que nos apresentamos, nos reunimos no final da tarde para ensaiar O Mist\u00e9rio das Bolas de Gude, depois fizemos sess\u00e3o da pe\u00e7a com que ainda estamos em cartaz, A Vida na Pra\u00e7a Roosevelt, de Dea Loher, e enfim, \u00e0 meia-noite, nos encontramos no espa\u00e7o do Centro Informa\u00e7\u00e3o Mulher (6), dirigido pela combativa Marta Bai\u00e3o (4), situado do outro lado da Igreja da Consola\u00e7\u00e3o, para os retoques finais da performance ao redor do livro de Dimenstein.<br \/>\nA essa altura j\u00e1 sab\u00edamos que o trabalho seria visto pelo p\u00fablico dos Satyros e por mais um punhado de autoridades, entre elas o ent\u00e3o prefeito Jos\u00e9 Serra (8), o secret\u00e1rio municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil (9), o subprefeito da S\u00e9, Andr\u00e9a Matarazzo (10) e outras tantas personalidades. Para o grupo, uma plat\u00e9ia n\u00e3o diferente das outras. O Teatro dos Satyros n\u00e3o \u00e9 partid\u00e1rio, n\u00e3o segue nenhuma linha de conduta ou de est\u00e9tica determinada por qualquer outra fonte que n\u00e3o seja a cabe\u00e7a, a sensibilidade dos artistas que o formaram. Unidos os grupos teatrais e as cantoras, partimos para o ensaio final. Embora fossem cerca de 50 pessoas em cena, o deus do teatro nos ajudou e correu tudo bem.<br \/>\nAconteceu por\u00e9m que, quando est\u00e1vamos terminando o ensaio e dever\u00edamos voltar aos Satyros para os \u00faltimos preparativos da apresenta\u00e7\u00e3o, marcada para as duas da madrugada, desabou uma tempestade tropical de not\u00e1vel intensidade. E p\u00f5e not\u00e1vel nisso. E da\u00ed? Cerca de 500 metros separam o CIM dos Satyros. Seria o suficiente para chegarmos no teatro ensopados, desfeitos. E muitos dos atores j\u00e1 estavam com o jeans e a camiseta branca com que iriam entrar em cena. P\u00e2nico. Susto. Que fazer? Nem sinal de guarda-chuva. Muito menos daquelas capas de dobrar, que camel\u00f4s ventem por um R$1.<br \/>\nEnt\u00e3o ouvimos Rodolfo dizer: \u201cOlhem aqui\u201d. Ele havia encontrado uma folha de pl\u00e1stico preto com v\u00e1rios metros de extens\u00e3o, que Marta Bai\u00e3o usara em um espet\u00e1culo. Resultado: em poucos minutos Rodolfo organizou debaixo do pl\u00e1stico preto toda a tropa de atores e m\u00fasicos, os quase 50 integrantes do trabalho, inclu\u00eddo a\u00ed o autor Gilberto Dimenstein. Chovia como se o mundo fosse acabar. Apesar disso, aos poucos, a centop\u00e9ia de casco de pl\u00e1stico preto saiu do CIM, passou pelo posto da Pol\u00edcia Militar, ganhou a Rua da Consola\u00e7\u00e3o, avan\u00e7ou pela frente da igreja para o interior da Pra\u00e7a Roosevelt e finalmente desembocou na al\u00e9ia que conduz praticamente \u00e0 porta dos Satyros. Apesar do temporal, o teatro estava lotado e os bares ao lado tamb\u00e9m. Quando chegamos ao teatro, milagrosamente secos, o p\u00fablico come\u00e7ou a aplaudir.<br \/>\nAssim s\u00e3o as coisas nos Satyros. N\u00f3s nos sent\u00edamos triunfantes por ter conseguido driblar a tempestade. E o p\u00fablico que testemunhou nossa caminhada percebeu que estava presenciando um evento incomum. T\u00e3o incomum quanto o pr\u00f3prio esp\u00edrito do grupo que h\u00e1 17 anos semeia perplexidades, inquieta\u00e7\u00e3o, provoca\u00e7\u00f5es, que transpira arte da forma mais intensa e vital que se pode imaginar.<\/p>\n<p>Naquela aquosa madrugada a performance O Mist\u00e9rio das Bolas de Gude foi um sucesso. Quem sabe pela primeira vez o ex-prefeito e seu s\u00e9quito viram e ouviram de perto, al\u00e9m da emo\u00e7\u00e3o contida nas palavras de Dimenstein e do talento generoso dos meninos do Jardim Pantanal, a dan\u00e7a da travesti Phedra de C\u00f3rdoba. Membro integrante da companhia, ela foi, por conta dessa apresenta\u00e7\u00e3o, entrevistada pelo conservador jornal O Estado de S. Paulo. Quem diria, Phedra, diva underground, figura da noite, dan\u00e7ando para o ent\u00e3o prefeito Serra e sendo entrevistada pelo Estad\u00e3o. Penso que s\u00f3 nos Satyros, no Oficina e em alguns outros poucos grupos pela cidade e pelo mundo, algo assim poderia ocorrer. O esp\u00edrito transgressor faz parte da alma da companhia. Que, se \u00e9 transgressiva na arte, \u00e9 batalhadora obsessiva no dia a dia. Nos Satyros, lutamos como feras pela sobreviv\u00eancia. \u00c9 dura a manuten\u00e7\u00e3o de uma companhia independente. A atividade no escrit\u00f3rio \u00e9 sempre fren\u00e9tica. N\u00e3o h\u00e1 edital ou projeto de apoio municipal, estadual, federal, ao qual os Satyros n\u00e3o concorram. Isso requer uma m\u00e3o de obra imensa, comandada sempre pelos incans\u00e1veis Ivam e Rodolfo. Apesar dessa guerra insana, na qual se perdem mais batalhas do que se ganham, os Satyros n\u00e3o s\u00e3o um grupo soturno, grave, melanc\u00f3lico. A energia que circula pelas duas salas da Pra\u00e7a Roosevelt \u00e9 bem outra. Festeira, dan\u00e7ante, vital. Nos Satyros, tudo \u00e9 motivo para festa. E que festas! Tornam-se lend\u00e1rias. S\u00f3 quem j\u00e1 subiu no balc\u00e3o do bar do teatro durante uma dessas comemora\u00e7\u00f5es sabe do que estou falando.<br \/>\nEssa alegria intensa est\u00e1 presente tamb\u00e9m na cria\u00e7\u00e3o dos trabalhos da companhia. Desde o in\u00edcio dos ensaios de Kaspar, quando se formou um n\u00facleo est\u00e1vel de atores que se mant\u00e9m at\u00e9 o presente, percebe-se o esp\u00edrito de equipe que norteia as realiza\u00e7\u00f5es do grupo. A lideran\u00e7a de Rodolfo e Ivam \u00e9 incontest\u00e1vel. Rodolfo \u00e9 um dos diretores mais conseq\u00fcentes e mais talentosos em a\u00e7\u00e3o hoje no Brasil. Seu teatro \u00e9 sempre inteligente, arguto, provocador. Um diretor de rara acessibilidade. Ao contr\u00e1rio de v\u00e1rios de seus colegas, que iniciam o trabalho com uma id\u00e9ia pronta do espet\u00e1culo e da personagem, Rodolfo abre muito espa\u00e7o para o ator. Aceita sugest\u00f5es, id\u00e9ias, incorpora muitas delas ao espet\u00e1culo. Mas \u00e9 tamb\u00e9m um artista que sabe firmemente aonde quer chegar. E sabe impor seus pontos de vista, n\u00e3o pela autoridade, mas pela l\u00f3gica, sempre que necess\u00e1rio. Se respeita o ponto de vista do ator, exige que este respeite o trabalho teatral que est\u00e1 em desenvolvimento.<br \/>\nIvam Cabral \u00e9 um ator de rara ousadia. Todo o seu processo consiste em jogar com o desafio, com o desconhecido. \u00c9 um ator camale\u00e3o, que se transmuta na personagem, nas personagens in\u00fameras que vem vivendo nas quase duas d\u00e9cadas de carreira. Ivam se atira na cria\u00e7\u00e3o sem rede de prote\u00e7\u00e3o. O que o instiga em cada cria\u00e7\u00e3o \u00e9 a busca de algo que nunca fez antes. O seu jogo em cena tamb\u00e9m reflete essa disposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 um ator que incorpora o erro, o esquecimento, a falha humana, ao processo art\u00edstico. Se o int\u00e9rprete trope\u00e7a no texto, a personagem imediatamente reage a isso com uma velocidade espantosa. O jogo de Ivam Cabral com a plat\u00e9ia \u00e9 limpo, aberto, ousado. Um ator que se arrisca, que muitas vezes corre o perigo de perder p\u00e9, t\u00e3o fundo e intenso \u00e9 seu mergulho no jogo da atua\u00e7\u00e3o. A claridade de seu trabalho faz com que a plat\u00e9ia o respeite e admire e ame mesmo quando falha. Sua presen\u00e7a \u00e9 sempre t\u00e3o magn\u00e9tica, que as personagens mais variadas ganham em suas m\u00e3os um brilho louco e intenso que \u00e9 \u00fanico, especificamente cabraliano.<br \/>\nAo redor do eixo central formado pela dupla de criadores dos Satyros sempre gravita muita gente. Os elencos das pe\u00e7as produzidas pela companhia, os elencos convidados a se apresentar no espa\u00e7o, um povo que todas as noites transforma aquele peda\u00e7o da Pra\u00e7a Roosevelt em um p\u00f3lo irradiador de vida e cultura. N\u00e3o \u00e9 uma conviv\u00eancia simples. A quantidade de problemas a administrar \u00e9 imensa. Mas o \u201cteatro veloz\u201d caminha. E semeia espet\u00e1culos. Muitas das montagens n\u00e3o produzidas pela companhia que se apresentam no Espa\u00e7o dos Satyros n\u00e3o conseguiriam chegar ao palco sem o apoio dos Satyros.<br \/>\nEste n\u00e3o \u00e9 um texto cr\u00edtico e nem se pretende um balan\u00e7o equilibrado das atividades da trupe. \u00c9 um depoimento pessoal, subjetivo, emotivo. A conviv\u00eancia leva a isso. Nem sempre a companhia atinge o alvo em suas cria\u00e7\u00f5es. H\u00e1 acertos e erros. H\u00e1 trabalhos que ganham intensa repercuss\u00e3o e outros que n\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m de discretas carreiras. O importante no caso n\u00e3o \u00e9 computar os sucessos apenas, mas perceber que todas as encena\u00e7\u00f5es que se colocam sob os refletores dos Satyros s\u00e3o experi\u00eancias est\u00e9ticas que recusam a conformidade, o bom-mocismo, as famigeradas leis de mercado.<br \/>\nBusca-se realizar na pra\u00e7a Roosevelt, como os Satyros buscaram sempre em suas outras sedes, no bairro do Bexiga, nas cidades de Lisboa e Curitiba, um teatro vivo, pulsante. O sucesso \u00e9 decorr\u00eancia sempre n\u00e3o da busca de uma popularidade for\u00e7ada e descabida, mas da sintonia entre a sensibilidade do grupo e os acontecimentos que o circundam. O teatro feito pelos Satyros \u00e9 uma resposta ao cotidiano. Reflete a vida pr\u00f3xima e remota que faz de n\u00f3s o que somos. Essa coer\u00eancia se encontra tamb\u00e9m nas produ\u00e7\u00f5es de outros artistas que se apresentam nas salas da companhia. A febre de cria\u00e7\u00e3o circunda os Satyros. Em abril de 2006 foram tr\u00eas estr\u00e9ias: O Anjo do Pavilh\u00e3o Cinco, texto de Aimar Labaki (11) produzido pelo ator Andr\u00e9 Fusko (12), que tem como protagonista Ivam Cabral, Joana Evangelista, de Vange Leonel , produ\u00e7\u00e3o da trupe, com dire\u00e7\u00e3o de \u00c2ngela Barros (13), e Os Cento e Vinte Dias de Sodoma, a violenta diatribe do marqu\u00eas de Sade contra a moral burguesa, com adapta\u00e7\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o de Rodolfo Garc\u00eda V\u00e1zquez.<br \/>\nAl\u00e9m disso, A Vida na Pra\u00e7a Roosevelt viaja pelo interior de S\u00e3o Paulo, antes de viajar em maio para a Alemanha, pa\u00eds que tamb\u00e9m acolher\u00e1 outra produ\u00e7\u00e3o do grupo, Vestir o Corpo de Espinhos, que o N\u00facleo Experimental dos Satyros levar\u00e1 ao festival PlayOff\u201906, em Gelsenkirchen. E h\u00e1 o projeto do Espa\u00e7o dos Satyros 3, que ainda neste ano passar\u00e1 a funcionar no Jardim Pantanal, onde a companhia j\u00e1 mant\u00e9m oficinas que est\u00e3o rendendo frut\u00edferas parcerias. H\u00e1 na trupe uma n\u00edtida conci\u00eancia do poder transformador da arte, e ele est\u00e1 sendo exercido a cada dia, a cada noite, a cada ensaio, a cada estr\u00e9ia. Uma estrada \u00e1rdua, mas revitalizante. E empolgante. N\u00e3o poderia ser de outra forma no territ\u00f3rio do teatro visceral.<\/p>\n<p>Escrito por Alberto Guzik \u00e0s 16h26<\/p>\n<p>(1) Vange Leonel ( S\u00e3o Paulo, 1963). Cantora, compositora, escritora e dramaturga. Autora de \u201cAs Sereias da Rive Gauche\u201d ( 2000 \u2013 dire\u00e7\u00e3o de Regina Galdino) e \u201cJoana Evangelista\u201d ( 2006 \u2013 S\u00e1tiros). Ativista LGBT.<\/p>\n<p>(2) Satyrianas. Teatrop\u00e9dia.<\/p>\n<p>(3) Patr\u00edcia Aguille .<\/p>\n<p>(4) Virada Cultural. Evento oficial da cidade de S\u00e3o Paulo, surgido em 2005. Inspirado nas Satyrianas e nas Nuits Blanches parisienses. 24 horas ininterruptas de apresenta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas gratuitas.<br \/>\nhttp:\/\/www.viradacultural.org\/<\/p>\n<p>(5) Gilberto Dilmenstein ( S\u00e3o Paulo, 1956). Jornalista especializado em quest\u00f5es de cidadania e educa\u00e7\u00e3o. Fundador do Projeto Aprendiz. ( http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br ) e idealizador do site Catraca Livre (http:\/\/catracalivre.folha.uol.com.br\/ )<\/p>\n<p>(6) Centro Informa\u00e7\u00e3o Mulher. O CIM \u2013 Centro Informa\u00e7\u00e3o Mulher \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o feminista, n\u00e3o\u2013governamental, criada em 1981 para restituir a hist\u00f3ria\/mem\u00f3ria da mulher, instrumento de luta contra a domina\u00e7\u00e3o\/explora\u00e7\u00e3o das mulheres. O CIM foi fundado com intuito de se unir as for\u00e7as feministas e aos movimentos sociais contra o Patriarcalismo\/Capitalismo, que se manifesta principalmente nas rela\u00e7\u00f5es violentas e desiguais, de g\u00eanero, classe, ra\u00e7a e etnia, bem como, nas persegui\u00e7\u00f5es homof\u00f3bicas e lesbof\u00f3bicas.<br \/>\nhttp:\/\/www.cimsp.com.br\/Home.php<\/p>\n<p>(7) Marta Bai\u00e3o Atriz, ativista feminista, artista pl\u00e1stica\/fot\u00f3grafa, psicodramatista, mestrado em artes c\u00eanicas (ECA\/USP), capixaba residente em SP. Diretora das Mal-Amadas Cia de Teatro criado em 1992.<\/p>\n<p>(8) Jos\u00e9 Serra ( S\u00e3o Paulo, 1942) . Pol\u00edtico e economista. Foi Ministro da Sa\u00fade e do Planejamento. Prefeito e governador de S\u00e3o Paulo. Foi um sua gest\u00e3o que foi fundada a SP Escola de Teatro.<\/p>\n<p>(9) Carlos Augusto Calil ( S\u00e3o Paulo, 1951). Professor da ECA-USP, ensaista, cineasta. Organizou a Cinemateca Brasileira junto com Paulo Em\u00edlio Salles Gomes (1987). Foi diretor da Embrafilme ( 1979-1986) e Secret\u00e1rio de Cultura da Cidade de S\u00e3o Paulo.(2005- 2012)<\/p>\n<p>(10) Andr\u00e9a Matarazzo ( S\u00e3o Paulo, 1956). Empres\u00e1rio e pol\u00edtico, sobrinho-neto do conde Francesco Matarazzo. Foi Secret\u00e1rio da Cultura do Estado de S\u00e3o Paulo e Secret\u00e1rio da Coordena\u00e7\u00e3o das Sub-Prefeituras da Cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Terminei faz pouco o livro &#8220;Cia de Teatro Os Satyros: Um Palco Visceral&#8221;, que a Imprensa Oficial deve publicar em breve. Aqui vai (em quatro partes!) a apresenta\u00e7\u00e3o que escrevi para o livro. No momento em que escrevo estas linhas completo uma conviv\u00eancia \u00edntima e di\u00e1ria de dois anos e nove meses com a Cia. de Teatro Os Satyros. 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