{"id":220,"date":"2006-09-17T11:54:48","date_gmt":"2006-09-17T11:54:48","guid":{"rendered":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/?p=220"},"modified":"2021-10-27T19:59:42","modified_gmt":"2021-10-27T19:59:42","slug":"dois-espetaculos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/index.php\/2006\/09\/17\/dois-espetaculos\/","title":{"rendered":"Dois espet\u00e1culos"},"content":{"rendered":"<p>Bom teatro em pequenos formatos. Nos \u00faltimos sete dias, dois espet\u00e1culos \u201cde bolso\u201d me deixaram muito impressionado. Semana passada vi \u201cTr\u00eas Paredes e Meia\u201d, dramaturgia de S\u00e9rgio Pires (1) em cima do romance\/relato\/alucina\u00e7\u00e3o \u201cNossa Senhora das Flores\u201d, de Jean Genet (2) , com dire\u00e7\u00e3o de Emerson Rossini (3) . Em cartaz nos Satyros 2, o espet\u00e1culo de Rossini cria em cena uma cela na qual o prisioneiro, Genet, aguarda tanto o dia de sua audi\u00eancia quanto a hora do banho de sol. Enquanto espera, fragmentos de sua obra e algumas de suas personagens o habitam. Um espet\u00e1culo pungente, rigorosamente belo e simples, com uma estupenda ilumina\u00e7\u00e3o do mago Bonfanti (4) . Pedro Vieira (5)vive Genet com uma destreza corporal e um desenho de personagem(ns) que demonstram um ator mais que competente, um artista completo, pronto a enfrentar qualquer desafio. \u201cTr\u00eas Paredes e Meia desconcerta, incomoda e perturba. Emerson Rossini demonstra ter m\u00e3o precisa, ousadia e bom gosto. Faz teatro do bom. Ontem, como n\u00e3o tivemos sess\u00e3o de \u201cA Vida Na Pra\u00e7a Roosevelt\u201d, que fica em cartaz s\u00f3 at\u00e9 o fim de setembro, nos Satyros 1, fui ver \u201cPedras nos Bolsos\u201d, texto da irlandesa Marie Jones (6) que ocupa o hor\u00e1rio nobre do Crowne Plaza nos fins de semana. No elenco, Rubens Carib\u00e9 (7)e Marco Ant\u00f4nio P\u00e2mio (8). A pe\u00e7a fala de dois figurantes que, numa pequena vila irlandesa, participam de uma superprodu\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica internacional, com diretor e atores vindos de Hollywood. Ao mesmo tempo, os dois figurantes se desdobram em diversos outros personagens, entre eles o diretor do filme e sua estrela. As trocas n\u00e3o s\u00e3o feitas por meio de figurinos ou adere\u00e7os. Dependem apenas da destreza dos int\u00e9rpretes. A montagem exige assim jogo de cintura, coisa que P\u00e2mio e Carib\u00e9 t\u00eam de sobra. O espet\u00e1culo, dirigido por Domingos Nunez (9), abre total espa\u00e7o para os atores, que literalmente deitam e rolam. A plat\u00e9ia se diverte porque os dois se divertem em cena. E a pe\u00e7a vai al\u00e9m do trivial. Por meio da hist\u00f3ria de um jovem suicida (desde que comecei a ensaiar \u201cInoc\u00eancia\u2019, trope\u00e7o com hist\u00f3rias de morte e suic\u00eddio a toda hora em meu cotidiano; e n\u00e3o sem raz\u00e3o), a pe\u00e7a faz uma critica acida do sistema e mostra de que modo as a\u00e7\u00f5es de um ser humano se entrela\u00e7am no destino do outros. Um trabalho que tem de ser visto tamb\u00e9m. \u00c9 bom sair feliz do teatro, n\u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>Escrito por Alberto Guzik \u00e0s 13h43<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>S\u00e9rgio Pires. Ator, dramaturgo e diretor. Graduado emFilosofia pela UNIFAI. Durante seis anos integrou o N\u00facleo de Pesquisa Dramat\u00fargica e, durante tr\u00eas anos, o N\u00facleo de Estudos do Teatro Contempor\u00e2neo, ambos pela Escola Livre de Teatro de Santo Andr\u00e9. Durante os anos de 2001 e 2002, integrou o n\u00facleo de dramaturgos brasileiros em interc\u00e2mbio com o Royal Court Theatre de Londres.<\/li>\n<li>Jean Genet (1910-1986). Dramaturgo, romancista, poeta, ensaista e ativista pol\u00edtico franc\u00eas. Passou o in\u00edcio da sua vida no submundo, cometeu crimes menores e passou temporadas preso. Os textos que come\u00e7ou a escrever na pris\u00e3o o transformaram numa celebridade \u2013 e depois em um dos maiores autores franceses da segunda metade do s\u00e9culo 20. Ainda que extremamente controverso, pela homossexualidade expl\u00edcita, pela forma po\u00e9tica com que retrata o submundo e por suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Seus textos mais importantes s\u00e3o O Balc\u00e3o, Os Negros, As Criadas e Os Biombos.<\/li>\n<li>Emerson Rossini. Graduado em Dire\u00e7\u00e3o Teatral pela E.C.A. &#8211; U.S.P. e atua\u00e7\u00e3o pela E.A.D. dirigiu<strong> \u201cHeli\u00f3polis-Cidade Sol\u201d<\/strong> de Airton Dupin (2012),<strong> \u201cResto de cerveja em copo transparente\u201d\u00a0<\/strong>(2010) ,<strong> \u201cTr\u00eas paredes e meia\u201d<\/strong> (2007) e <strong>\u201cCad\u00eancia\u201d (2006)<\/strong>, textos de S\u00e9rgio Pires<strong>, \u201cVozes Familiares\u201d<\/strong> de Harold Pinter (2005). Como ator na Cia. do Lat\u00e3o (2002 a 2006), Cia. Teatro de Narradores (2010\/2011) entre outros.&#8221;<\/li>\n<li>Guilherme Bonfanti. Teatrop\u00e9dia.<\/li>\n<li>Pedro Vieira. Formado pelo Teatro Escola Macuna\u00edma, estudou tamb\u00e9m na Escola Livre de Teatro de Santo Andr\u00e9. Atuou em\u00a0 \u201cA Morta (Viva) de Oswald de Andrade e dir. de Luis Fernando Ramos, \u201cResto de cerveja em copo transparente\u201d e \u201cTr\u00eas paredes e meia\u201d de S\u00e9rgio Pires com dire\u00e7\u00e3o de Emerson Rossini, \u201cApocalipse 1.11\u201d de Fernando Bonassi e dire\u00e7\u00e3o de Antonio Ara\u00fajo. Em cinema atuou nos longas: \u201cDe cara limpa\u201d, \u201cCarandiru\u201d , \u201cNina\u201d e \u201cAmanh\u00e3 nunca mais\u201d.<\/li>\n<li>Marie Jones (1951) \u00e9 uma das autoras mais importantes e mais prof\u00edcuas a surgir no Norte da Irlanda. Nascida emBelfast, trabalhou muitos anos como atriz, antes de come\u00e7ar tamb\u00e9m a escrever. Escreveu, entre muitos outros, <em>Lay Up Your Ends<\/em> (1983), <em>Oul\u2019 Delf and False Teeth<\/em> (1984),<em> The Terrible Twins\u2019 Crazy Christmas<\/em> (1988), <em>Weddin\u2019s, Weein\u2019s and Wakes<\/em> (1989), <em>The Hamster Wheel<\/em> (1990), e <em>The Blind Fiddler of Glenadauch<\/em> (1990).\u00a0Escreve tambem para a tv \u2013 e nunca deixou de trabalhar como atriz..<\/li>\n<li>Rubens Carib\u00e9. Teatrop\u00e9dia.<\/li>\n<li>Marco Ant\u00f4nio P\u00e2mio. Teatrop\u00e9dia.<\/li>\n<li>Domingos Nunez<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>S\u00e1bato Magaldi e sua dedicat\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>\u201cTeatro Sempre\u201d \u00e9 o nome do novo livro de S\u00e1bato Magaldi (1) lan\u00e7ado pela Editora Perspectiva. S\u00e1bato foi meu mestre. O cr\u00edtico que li durante toda a adolesc\u00eancia, ao lado de D\u00e9cio de Almeida Prado(2) . Achava os pontos de vista do S\u00e1bato mais modernos, mais afinados com o que eu queria, um teatro de desafios, de rupturas. Sempre foi um cr\u00edtico refinado, agudo, certeiro. Acompanhei-o desde cedo. Primeiro como leitor do \u201cEstado de S. Paulo\u201d e do \u201cJornal da Tarde\u201d, depois como aluno na EAD (3), como assistente nas aulas memor\u00e1veis da ECA (4) , e enfim como seu colega, indicado por ele, no \u201cJornal da Tarde\u201d. Pois bem, S\u00e1bato, que hoje \u00e9 integrante da Academia Brasileira de Letras e uma lenda viva da cr\u00edtica e do teatro brasileiros, mandou-me seu livro novo, \u201cTeatro Sempre\u201d. A obra \u00e9 editada pela Perspectiva, criada por Jac\u00f3 Guinsburg (5) , outro de meus mestres, professor de rara perspic\u00e1cia, que transformou sua editora em uma refer\u00eancia obrigat\u00f3ria para os estudantes de teatro que devemos ser a vida toda. \u201cTeatro Sempre\u201d \u00e9 uma reuni\u00e3o de confer\u00eancias e artigos que S\u00e1bato elaborou dos anos 80 para c\u00e1. Est\u00e3o no livro a acuidade de sempre, a vis\u00e3o justa e aguda. S\u00e1bato \u00e9 para mim s\u00edmbolo de um tempo luminoso do teatro brasileiro, feito de sonhos que pareciam infinitos. Ele \u00e9 aos meus olhos o cr\u00edtico que melhor resume o esp\u00edrito de esperan\u00e7a e otimismo que tomou o teatro no final dos anos 50, e, apesar da ditadura militar(6), se prolongou ao longo dos anos 60, at\u00e9 a decreta\u00e7\u00e3o do AI5 (7), em 1968. S\u00e1bato foi o grande cr\u00edtico do Arena (8), do Oficina (9), de Cacilda Becker (10), de S\u00e9rgio Cardoso (11), dos dramaturgos \u201cnovos\u201d, que inclu\u00edam Nelson Rodrigues (12), Jorge Andrade (13), Ariano Suassuna (14). Tudo isso S\u00e1bato representa para mim.<\/p>\n<p>E, causando em mim uma enorme emo\u00e7\u00e3o, S\u00e1bato Magaldi enviou-me seu livro com a seguinte dedicat\u00f3ria, que cometo a indiscri\u00e7\u00e3o de tornar p\u00fablica (espero que o mestre n\u00e3o desaprove seu eterno disc\u00edpulo), pela felicidade que meu causou:<\/p>\n<p>\u201cAo Alberto<\/p>\n<p>em quem me orgulho<\/p>\n<p>de ter acreditado, o<\/p>\n<p>abra\u00e7o amigo do<\/p>\n<p>S\u00e1bato Magaldi<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, setembro de 2006\u201d<\/p>\n<p>Obrigado mestre. O que aprendi com voc\u00ea (e n\u00e3o s\u00f3 com voc\u00ea; tive grandes professores e sei que tanto voc\u00ea quanto eu nos\u00a0orgulhamos disso, de ver tanta gente boa que dedicou seu talento ao teatro) me acompanha at\u00e9 hoje e norteia minhas a\u00e7\u00f5es na cena ou fora dela.<\/p>\n<p>Escrito por Alberto Guzik \u00e0s 13h50<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>S\u00e1bato Magaldi . Teatrop\u00e9dia.<\/li>\n<li>D\u00e9cio de Almeida Prado. Teatrop\u00e9dia.<\/li>\n<li>http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_teatro\/index.cfm?fuseaction=cias_biografia&amp;cd_verbete=633<\/li>\n<\/ul>\n<p><a href=\"http:\/\/www.eca.usp.br\/ead\/\">http:\/\/www.eca.usp.br\/ead\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da USP ( Universidade de S\u00e3o Paulo) <a href=\"http:\/\/www3.eca.usp.br\/\">http:\/\/www3.eca.usp.br\/<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(5) Jac\u00f3 Guinsburg. (<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/1921\">1921<\/a>, Bessar\u00e1bia, atual Mold\u00e1via) \u00e9 um <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cr%C3%ADtica\">cr\u00edtico de teatro<\/a>, <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ensa%C3%ADsta\">ensa\u00edsta<\/a> e <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Professor\">professor<\/a> <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Brasil\">brasileiro<\/a>, fundador de diretor da <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Editora_Perspectiva\">Editora Perspectiva<\/a>, a mais importante editora na area de teatro. Tradutor e editor de mais de uma centena de importantes obras de est\u00e9tica, teoria e hist\u00f3ria das artes e do teatro, \u00e9 o mais importante especialista em teatro <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/R%C3%BAssia\">russo<\/a> e em <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/L%C3%ADngua_i%C3%ADdiche\">l\u00edngua i\u00eddiche<\/a> no Brasil. Entre suas obras encontram-se <em>Stanislavski e o Teatro de Arte de Moscou, Aventuras de uma L\u00edngua Errante &#8211; Ensaio de Literatura e Teatro \u00cddiche, Leone De Sommi: Um Judeu no Teatro da Renascen\u00e7a Italiana, Guia Hist\u00f3rico da Literatura Hebraica, Dicion\u00e1rio do Teatro Brasileiro, Di\u00e1logos Sobre Teatro, Stanislavski, Meierhold Cia &amp; Ensaios de Teatro Russo, Semiologia do Teatro, Da Cena em Cena<\/em> e in\u00fameros ensaios de est\u00e9tica e hist\u00f3ria do teatro, tradu\u00e7\u00f5es e edi\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias obras sobre <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Diderot\">Diderot<\/a>, <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gotthold_Ephraim_Lessing\">Lessing<\/a>, <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Georg_B%C3%BCchner\">Buechner<\/a> e <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Nietzsche\">Nietzsche<\/a>. \u00c9 editor das obras completas de <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Anatol_Rosenfeld\">Anatol Rosenfeld<\/a>, importante cr\u00edtico e te\u00f3rico de teatro que viveu no Brasil depois da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<ul>\n<li>Ditadura Militar (1964-1985). Per\u00edodo hist\u00f3rico que vai do Golpe Militar de 1964 ( err\u00f4neamente conhecido como \u201cRevolu\u00e7\u00e3o de 64\u201d) at\u00e9 a posse de Jos\u00e9 Sarney como presidente. Sarney, at\u00e9 pouco antes presidente do partido de sustenta\u00e7\u00e3o da ditadura, foi vice de Tancredo Neves, eleito indiretamente presidente, mas que faleceu antes da posse. Foi um per\u00edodo de extremo arb\u00edtrio, quando a tortura virou pol\u00edtica de Estado, milhares de pessoas foram torturadas e presas sem processo jur\u00eddico, centenas morreram. A censura atacou severamente todas as frentes da Cultura.<\/li>\n<li>AI-5. Ato Institucional N\u00famero 5. Ato da Ditadura, promulgado em 13 de dezembro de 1968. Na pr\u00e1tica, um golpe dentro do golpe militar, com a vit\u00f3ria da ala mais \u00e0 direita.<\/li>\n<li>Arena Teatrop\u00e9dia<\/li>\n<li>Oficina Teatrop\u00e9dia<\/li>\n<li>Cacilda Becker Teatrop\u00e9dia<\/li>\n<li>Sergio Cardoso Teatrop\u00e9dia<\/li>\n<li>Nelson Rodrigues Teatrop\u00e9dia<\/li>\n<li>Jorge Andrade Teatrop\u00e9dia<\/li>\n<li>Ariano Suassuna Teatrop\u00e9dia<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bom teatro em pequenos formatos. Nos \u00faltimos sete dias, dois espet\u00e1culos \u201cde bolso\u201d me deixaram muito impressionado. Semana passada vi \u201cTr\u00eas Paredes e Meia\u201d, dramaturgia de S\u00e9rgio Pires (1) em cima do romance\/relato\/alucina\u00e7\u00e3o \u201cNossa Senhora das Flores\u201d, de Jean Genet (2) , com dire\u00e7\u00e3o de Emerson Rossini (3) . 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