{"id":211,"date":"2006-09-04T15:29:31","date_gmt":"2006-09-04T15:29:31","guid":{"rendered":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/?p=211"},"modified":"2021-10-18T15:31:30","modified_gmt":"2021-10-18T15:31:30","slug":"na-praca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/index.php\/2006\/09\/04\/na-praca\/","title":{"rendered":"Na Pra\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Fui convidado por Ivam Cabral e Jarbas Capusso (1)pra participar com um conto de um projeto bacana, que envolve gente legal como o Marcelino Freire e o Bact\u00e9ria(2) . Topei com prazer e escrevi o conto, que aqui est\u00e1 em primeira m\u00e3o:<\/p>\n<p>No Escurinho da Pra\u00e7a (primeira parte)<br \/>\nAlberto Guzik<\/p>\n<p>\u201cAfinal, eu sou Eloy Helol\u201d, ele diz em voz alta, com certa veem\u00eancia, enquanto caminha, raivoso. Ecoa na rua por um breve momento o nome. Esse nome molhado pelos sons \u00famidos do l e pelos tons redondos do o, que tem como propriet\u00e1rio uma figura alta e esguia que j\u00e1 ultrapassou os 40. Tem vasta cabeleira ondulada, cujos fios brancos o dono ciosamente esconde sob tinturas de v\u00e1rios tons de castanho. Os cabelos oscilam para um lado e para outro, seu brilho macio refletindo as luzes da noite, enquanto seu propriet\u00e1rio bate firme os calcanhares no piso esburacado. A cabeleira \u00e9 destaque de um conjunto sem maiores atrativos. A magreza do corpo \u00e9 excessiva. O rosto tem tra\u00e7os demasiado agudos, muitos \u00e2ngulos retos, olhos incans\u00e1veis, algo agressivos. Veste jeans e camiseta, roupa agarrada nas carnes escassas. Usa t\u00eanis prateado.<br \/>\nDesce a Rua Augusta e entra na Pra\u00e7a Roosevelt. Na esquina com a Nestor Pestana, do outro lado da rua, na mureta que se abre para o t\u00fanel sob a pra\u00e7a, Eloy avista dois garotos. Adolescentes. N\u00e3o devem ter mais de 16. N\u00e3o s\u00e3o bonitos. Nem feios. Joga a favor deles a juventude. Est\u00e3o parados perto do carrinho de cachorro quente, bermudas largas, camisetas de bandas de hip hop, bon\u00e9s. Um cal\u00e7a havaianas, o outro, um t\u00eanis detonado. Eloy observa de relance os meninos. Est\u00e3 t\u00e3o irado! Como aquele filho da puta p\u00f4de fazer isso? Pelo celular. E logo com ele. \u201cEu sou Eloy Helol\u201d, repete mais uma vez, como se precisasse se certificar do fato. Seu nome \u00e9 gritado tr\u00eas tardes por semana, pela plat\u00e9ia do programa de tev\u00ea que aplaude Eloy Helol, estilista que desenha figurinos pedidos pelas espectadoras. \u00c9 verdade que o coro n\u00e3o \u00e9 espont\u00e2neo. Quem puxa os aplausos \u00e9 a apresentadora do show di\u00e1rio de variedades que inclui o quadro protagonizado por Eloy.<br \/>\nAgora ali est\u00e1 ele, a caminho de casa, na avenida Ipiranga, puto da vida. E era t\u00e3o importante que dormisse bem. Amanh\u00e3 \u00e9 dia de programa. Na verdade hoje, pois j\u00e1 passa das duas da manh\u00e3. N\u00e3o deveria ter ficado tanto na festa. N\u00e3o teria recebido l\u00e1 o telefonema fat\u00eddico, que quase o levou a desmaiar na varanda da amiga aniversariante. O problema \u00e9 que quando n\u00e3o dorme suas benditas oito horas fica com olheiras horrendas e rosto mais encovado ainda. Como p\u00f4de fazer isso, o cachorro, o canalha, o escroto. Percebe que os garotos olham para ele, dizem alguma coisa e riem.<br \/>\nO mais alto, moreno claro, d\u00e1 uma piscada e passa a m\u00e3o no sexo. Eloy segue seu caminho. Olha para tr\u00e1s. Os meninos o seguem pela outra cal\u00e7ada. Estuga o passo. \u201cManeiro o seu t\u00eanis, tio\u201d, ouve. Quase sai correndo. Mas est\u00e1 com tanta raiva. N\u00e3o vai levar essa indigna\u00e7\u00e3o para casa. Vira-se para os meninos: \u201cT\u00e3o querendo o qu\u00ea?\u201d \u201cNada, tio, s\u00f3 zoar.\u201d \u201cN\u00e3o sou teu tio.\u201d \u201cCalma, tio. A gente n\u00e3o \u00e9 trombada. S\u00f3 tamo querendo zoar. Se o tio quiser morrer com algum depois&#8230;\u201d<br \/>\nEloy Helol n\u00e3o pensa duas vezes. Atravessa a rua. Pensa r\u00e1pido. Os meninos s\u00e3o menores, isso \u00e9 evidente. Ele, uma figura p\u00fablica, n\u00e3o pode se arriscar a lev\u00e1-los para um hotel. Para casa ent\u00e3o, nem pensar. Que fazer? Os garotos passam as m\u00e3os nos sexos e sorriem, debochados. Eloy ent\u00e3o decide. \u201cDou cinquent\u00e3o pros dois.\u201d \u201cFalou, tio\u201d, diz o mais alto, que tem um s\u00e9rio caso de acne. Mas isso n\u00e3o importa a Eloy. N\u00e3o vai convidar o menino pra jantar. Agora quer se vingar. Sentir que \u00e9 capaz ainda de provocar excita\u00e7\u00e3o. Filho da puta. Foi tanto tempo! (segue)<br \/>\n\u201cVamos ali\u201d, aponta para um desv\u00e3o da pra\u00e7a, envolto em sombras. Um recuo de colunas impede a vis\u00e3o da rua. Avan\u00e7a destemido. Que de pior pode lhe acontecer? Ser espancado, roubado? O que sente agora \u00e9 pior que isso. Pouco importa. Os meninos v\u00e3o atr\u00e1s. \u201cPassa a grana, tio.\u201d \u201cN\u00e3o sou teu tio. E s\u00f3 dou grana depois.\u201d \u201cAgora, tio, o nada feito.\u201d \u201cDepois\u201d. \u201cAgora, tio.\u201d O mais alto p\u00f4s o pau para fora. \u00c9 bonito, de bom tamanho, est\u00e1 quase duro. \u201cT\u00e1 bom.\u201d Tira o dinheiro do bolso, passa a nota para o guri. \u201cVai, viado, chupa.\u201d O caralho \u00e9 grosso e cheio de veias. Tem um cheiro que faz o cora\u00e7\u00e3o de Eloy bater mais forte. Ele se ajoelha e aproxima os l\u00e1bios da carne quente e pulsante. O menino segura-o pelos ombros e empurra sua cabe\u00e7a de encontro \u00e0 pica. Eloy engasga, afasta-se para tomar ar, leva um tapa. \u201cChupa, viado.\u201d Eloy estabelece um ritmo. Est\u00e1 com medo. Quer sair dali. O outro garoto se aproxima, piroca em riste. \u00c9 menor e mais fina. Eloy segura-a e masturba o segundo garoto, franzino e sardento, que resmunga palavras indistintas. \u201cV\u00f4 te fud\u00ea, tio\u201d, diz o mais alto. Eloy decide que isso est\u00e1 fora dos limites. N\u00e3o vai permitir. \u201cV\u00f4 te fud\u00ea, tio, e tu vai chupa o Rubinho.\u201d O menino mais alto se dobra, sem tirar a vara da boca de Eloy, e tenta, com ajuda do franzino, baixar as cal\u00e7as de Eloy, que engasga na rola e sente-se alucinado.<br \/>\nUma luz forte, um berro. N\u00e3o s\u00e3o vis\u00f5es do orgasmo.<br \/>\n\u201cParados a\u00ed, pol\u00edcia!\u201d<br \/>\n\u201c\u00d3, \u00e9 aquele cara da televis\u00e3o!\u201d<br \/>\n\u201cIh, meu. Sujeira. Com menores.\u201d<br \/>\n\u201cPedofilia.\u201d<br \/>\nV\u00e3o todos para a delegacia. Os meninos s\u00e3o encaminhados para uma institui\u00e7\u00e3o. Eloy \u00e9 fichado e passa a noite no xilindr\u00f3. N\u00e3o prega o olho, apavorado, tr\u00eamulo. Na manh\u00e3 seguinte um advogado da emissora o tira de l\u00e1. Vai responder por violento atentado ao pudor, mas em liberdade.<br \/>\nV\u00ea sua cara na banca de jornal. Nunca tinha aparecido numa primeira p\u00e1gina. Agora&#8230; Algemado, saindo do cambur\u00e3o, agonia nos olhos capturada pela foto. Vai pra casa, destru\u00eddo. Quer tomar uma chuveirada.<br \/>\n\u201cEloy, n\u00e3o precisa fazer aparecer no programa hoje. Procure o departamento de pessoal da emissora.\u201d A produtora deixou o recado na secret\u00e1ria eletr\u00f4nica. N\u00e3o poderia ter falado com ele frente a frente? Humilhante. Que vai fazer? Pensa em se atirar do viaduto.<br \/>\nTelefone.<br \/>\n\u201cEloy?\u201d \u201cSim.\u201d \u201cAqui \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o do \u2018Tarde Cheia\u2019. Voc\u00ea pode falar?\u201d \u00c9 um programa concorrente daquele em que esteve empregado at\u00e9 umas horas atr\u00e1s. \u201cPosso.\u201d \u201cFicamos sabendo que a TV TV te dispensou.\u201d \u201cAs not\u00edcias correm.\u201d \u201cTaria interessado em fazer um quadro com a gente?\u201d \u201cEu?\u201d \u201cClaro, meu. E come\u00e7ando hoje. Quer vir aqui pra gente conversar?\u201d \u201cMas&#8230;\u201d \u201cQuer ou n\u00e3o quer? Voc\u00ea t\u00e1 famoso, cara. Vamos transformar voc\u00ea em um rep\u00f3rter de esc\u00e2ndalos. E vai come\u00e7ar contando a tua hist\u00f3ria. Topas? Pode at\u00e9 dizer que foi tudo arma\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia. A gente banca. Que tal?\u201d \u201cMas eu sou estilista. Sei desenhar roupa. Que hist\u00f3ria \u00e9 essa?\u201d \u201cE voc\u00ea acha que nesse ramo tu ainda tem futuro? Depois do que aconteceu?\u201d \u201cQue horas \u00e9 pra estar ai?\u201d<br \/>\nO cora\u00e7\u00e3o de Eloy bate forte enquanto tira a roupa para entrar no banho. Ent\u00e3o pensa nos meninos. No caralho belo e grosso do mais alto. Onde estar\u00e3o? Que tal uma entrevista com eles?<\/p>\n<p>Escrito por Alberto Guzik \u00e0s 11h46<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui convidado por Ivam Cabral e Jarbas Capusso (1)pra participar com um conto de um projeto bacana, que envolve gente legal como o Marcelino Freire e o Bact\u00e9ria(2) . 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