{"id":204,"date":"2006-08-14T17:05:14","date_gmt":"2006-08-14T17:05:14","guid":{"rendered":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/?p=204"},"modified":"2021-10-18T15:33:17","modified_gmt":"2021-10-18T15:33:17","slug":"estrangeiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/index.php\/2006\/08\/14\/estrangeiros\/","title":{"rendered":"Estrangeiros"},"content":{"rendered":"<p>\u201cInoc\u00eancia\u201d tem entre seus protagonistas dois imigrantes ilegais que sofrem todas as press\u00f5es que essa gente pode sofrer. Nos ensaios, temos falado muito sobre estrangeiros, sobre o que \u00e9 ser estrangeiro. Lembrei da\u00ed que em meu romance, \u201cRisco de Vida\u201d, publicado pela Editora Globo em 1995 e praticamente invis\u00edvel nas livrarias h\u00e1 muito tempo, h\u00e1 um trecho em que o protagonista, Thomas, vive, em sua cidade, uma situa\u00e7\u00e3o de \u201cestrangeiridade\u201d. Vai a\u00ed:<\/p>\n<p>O telefone tocou duas vezes. Avrum atendeu.<br \/>\n&#8212; Pai, bom dia.<br \/>\n&#8212; Como vai, filho?<br \/>\n&#8212; Tudo bem. &#8212; Thomas tentou imprimir um tom tranq\u00fcilo \u00e0 voz. N\u00e3o havia dito nada a Pola e Avrum sobre a doen\u00e7a de Cl\u00e1udio. De in\u00edcio achara que seria mais f\u00e1cil assim. Depois havia mudado de id\u00e9ia, mas n\u00e3o soube como tocar no assunto. &#8212; Estou ligando porque. Bem. O senhor vai \u00e0 sinagoga?<br \/>\n&#8212; Sim.<br \/>\n&#8212; Pensei que. Quer dizer. Posso ir junto?<br \/>\nThomas n\u00e3o lembrava mais quando tinha entrado pela \u00faltima vez numa sinagoga. Olhou em volta. O recinto estava semivazio no servi\u00e7o de s\u00e1bado. Dois velhos barbudos, vestidos de preto, junto do altar atapetado de vermelho, inclinavam-se para a frente e para tr\u00e1s enquanto liam nos rolos abertos sobre a mesa em cima do p\u00falpito e salmodiavam uma prece em hebraico. A lingua melodiosa e gutural chocava-se, incompreendida, nos ouvidos de Thomas. Alguns fi\u00e9is acompanhavam o cantor. Em sua maior parte, velhos de caras vermelhas, narizes saltados. Mas havia tamb\u00e9m um punhado de jovens que seguiam o servi\u00e7o atentos e compenetrados. Na galeria que circundava o piso inferior, umas poucas mulheres inclinavam-se sobre o parapeito. Pareciam menos interessadas na reza que no movimento dos homens, l\u00e1 em baixo.<br \/>\nAvrum estava entre orgulhoso e envergonhado. Tinha o filho a seu lado, como sempre quisera. Mas aquele n\u00e3o era o filho que desejava. Nos \u00faltimos anos, dilu\u00edra-se a figura do judeu liberal que Thomas conhecera a vida toda. Cedera lugar a um digno herdeiro do jovem de fam\u00edlia ortodoxa que deixara a Ucr\u00e2nia na d\u00e9cada de 30, rumo a um pa\u00eds tropical cujo nome n\u00e3o sabia pronunciar. Avrum voltara a freq\u00fcentar o servi\u00e7o religioso nas noites de sexta e nas manh\u00e3s de s\u00e1bado. Se ficou intrigado com o inesperado interesse de Thomas pelo ritual de seus ancestrais, n\u00e3o fez perguntas.<br \/>\nOscilante, Avrum caminhou at\u00e9 o banco pr\u00f3ximo do altar. Cumprimentou conhecidos com acenos dirigidos \u00e0 esquerda e \u00e0 direita. Thomas sentou-se num dos \u00faltimos bancos, perto da porta. Olhou em volta e perguntou-se o que fora fazer ali.<br \/>\nFechou os olhos. O vener\u00e1vel edif\u00edcio despertava nele antigas emo\u00e7\u00f5es. Naquele templo, menino assustado, segurara com for\u00e7a a m\u00e3o do pai durante a solene ora\u00e7\u00e3o vespertina do Yom Kippur, o Dia do Perd\u00e3o, quando os judeus ortodoxos jejuavam. Naquele templo, pirralho de cal\u00e7as curtas, fora ao casamento de Paula. Naquele templo vira os tr\u00eas sobrinhos comemorarem os d\u00e9cimos terceiros anivers\u00e1rios e a maioridade religiosa, o bar-mitzvah que ele recusara.<br \/>\nNaquele templo sentia-se sempre distante, desajustado. Os judeus eram estrangeiros nas terras em que viviam. Thomas era estranho entre judeus, estrangeiro entre estrangeiros. Suspenso no ar, sem face. Um judeu assimilado, nunca \u00e0 vontade c\u00e1 ou l\u00e1. Que esperara encontrar voltando \u00e0 sinagoga? Algum tipo de conforto? Algum milagre do deus judeu, do senhor do povo eleito? Seu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o pertencia \u00e0quela gente. Confuso, inclinou a cabe\u00e7a e p\u00f4s o rosto entre as m\u00e3os. Queria chorar.<br \/>\n&#8212; Vamos? &#8212; Avrum tocou seu ombro e olhou-o por tr\u00e1s das grossas lentes dos \u00f3culos, intrigado. N\u00e3o se dera conta de que a reza havia acabado e os fi\u00e9is deixavam o velho pr\u00e9dio.<\/p>\n<p>Sa\u00edram para a manh\u00e3 clara. Desceram a escadaria, tomaram a rua Avanhandava, rumo \u00e0 S\u00e3o Lu\u00eds. Durante algum tempo, Avrum elogiou o hazan, o cantor que entoara a prece. Informou que viera da Argentina e valia seu peso em ouro. Outra sinagoga tentara contrat\u00e1-lo, mas uma rea\u00e7\u00e3o r\u00e1pida da congrega\u00e7\u00e3o impedira a transfer\u00eancia. O assunto morreu. Seguiram andando em sil\u00eancio. Na rua Martins Fontes, Avrum perguntou:<br \/>\n&#8212; Qual o problema, filho?<br \/>\n&#8212; Nada<br \/>\n&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o vai me dizer que veio ao schill comigo s\u00f3 porque. Filho, eu te conhe\u00e7o. &#8212; Thomas n\u00e3o respondeu. Avrum n\u00e3o insistiu. &#8212; Vamos na padaria que a mam\u00e3e pediu coisas. &#8212; Pronnciava &#8220;mam\u00e2e&#8221; sem til, acentuava a abertura do &#8220;a&#8221;.<br \/>\nA padaria ficava na Martins Fontes. As paredes de ladrilhos brancos eram telas para pinturas com perspectiva torta. Avrum, carregando grande saco de papel, arrancou Thomas da contempla\u00e7\u00e3o das imagens.<br \/>\n&#8212; Vamos, filho?<br \/>\n&#8212; D\u00e1 que eu seguro o pacote.<br \/>\n&#8212; N\u00e3o precisa. \u00c9 leve. Filho?<br \/>\n&#8212; Sim.<br \/>\n&#8212; Queria te dizer que. N\u00e3o importa o que te aflige, seja o que for, eu e a mam\u00e3e estamos do seu lado.<br \/>\n&#8212; N\u00e3o tem nada errado, pai.<br \/>\n&#8212; Mesmo que tenha, filho. Queria dizer que voc\u00ea pode contar com a gente. Eu e a mam\u00e3e, n\u00f3s somos seus pais, filho. Lhe amamos. &#8212; O sotaque pesado e a sintaxe tr\u00f4pega eram comovedores. &#8212; Voc\u00ea nunca conta nada.<br \/>\n&#8212; Aprendi a n\u00e3o encher o saco dos outros com meus problemas.<br \/>\n&#8212; Mas n\u00f3s somos seus pais. &#8212; Avrum calou-se e olhou-o, muito s\u00e9rio, as grossas lentes ampliando os olhos doentes. &#8212; Quer dizer que n\u00e3o estou enganado. Voc\u00ea est\u00e1 com problemas.<br \/>\n&#8212; Sim.<br \/>\n&#8212; E n\u00e3o quer falar?<br \/>\n&#8212; N\u00e3o.<br \/>\n&#8212; Profissionais?<br \/>\n&#8212; N\u00e3o. Pessoais.<br \/>\n&#8212; Muito s\u00e9rios?<br \/>\n&#8212; Muito.<br \/>\n&#8212; E n\u00e3o quer falar?<br \/>\n&#8212; N\u00e3o.<br \/>\n&#8212; Mas voc\u00ea sabe que pode contar com a gente?<br \/>\n&#8212; Sim, pai, eu sei. &#8212; Thomas passou o bra\u00e7o pelo ombro de Avrum. Ajudou o velho a atravessar a Consola\u00e7\u00e3o. Caminharam lentos romo \u00e0 Sao Lu\u00eds e ao apartamento, por certo perfumado pelos aromas do almo\u00e7o.<br \/>\n&#8212; Mam\u00e3e fez creplach &#8212; informou Avrum, &#8212; orgulhoso.<br \/>\n&#8212; D\u00e1 tanto trabalho &#8212; reclamou Thomas, sem convic\u00e7\u00e3o. A confus\u00e3o de seus sentimentos n\u00e3o o impediu de ficar com \u00e1gua na boca ante a lembran\u00e7a dos pequenos ravi\u00f3lis recheados de frango. &#8212; Ela n\u00e3o devia. Ficou a manh\u00e3 toda na cozinha?<br \/>\n&#8212; N\u00e3o, passou a noite na cozinha. Mas e da\u00ed? Filho, ela faz por gosto, pra voc\u00ea e seus sobrinhos. Sabe que voc\u00eas gostam, que eu gosto. O que h\u00e1 de errado? O que se faz com amor n\u00e3o cansa. &#8212; Avrum olhou de tr\u00e1s da lentes grossas para Thomas. S\u00f3 uma coisa, filho, se voc\u00ea quiser esconder seus problemas da mam\u00e3e, vai ter de se esfor\u00e7ar mais. Sua tristeza d\u00e1 na vista. Vamos combinar uma coisa? Eu n\u00e3o vou dizer a Pola que voc\u00ea foi ao schill comigo. Sen\u00e3o ela vai ter ins\u00f4nia. Vai ser nosso segredo. Ok?<br \/>\n&#8212; Ok. Thomas sorriu. Olhou o pai com ternura.<\/p>\n<p>Escrito por Alberto Guzik \u00e0s 11h33<\/p>\n<p><strong>Novas, livros, filmes<\/strong><\/p>\n<p>Faz tanto tempo que n\u00e3o posto nada! Muito trabalho, muita leitura, muitos ensaios. Depois de estrear Risadas Gravadas, que ficou redondo, forte, muito bem defendido pelo elenco, voltei a dar aulas na escola do Wolf Maya e a ensaiar Inoc\u00eancia a todo vapor. Como se n\u00e3o bastasse, vou depois de amanh\u00e3 pro Recife, pra participar de um semin\u00e1rio de cr\u00edtica. Vida de jet setter \u00e9 foda. Retorno na quinta, porque temos ensaios de \u201cInoc\u00eancia\u201d, no s\u00e1bado a volta de \u201cA Vida na Pra\u00e7a Roosevelt\u201d aos Satyros 1, e no domingo, \u00e0s 15h, Ivam, Patr\u00edcia Aguille, eu e outras figuras leremos pela primeira vez a adapta\u00e7\u00e3o que Patr\u00edcia, a deusa loura, fez da \u201cJuliette\u201d, do Marqu\u00eas de Sade, que vamos montar ano que vem. A leitura ser\u00e1 no Centro Cultural S\u00e3o Paulo. Apare\u00e7am.<br \/>\nFilmes not\u00e1veis:<br \/>\n\u201cCaf\u00e9 da Manh\u00e3 em Plut\u00e3o\u201d. Neil Jordan em plena forma e um ator not\u00e1vel, Cilian Murphy (guardem esse nome), al\u00e9m de uma trilha sonora extraordin\u00e1ria pela breguice e pelo acerto.<br \/>\n\u201cSongs from the Secondo Floor\u201d, filme sueco, de Roy Andersson, realizado em 2000, um pesadelo branco que influenciou Dea Loher na reda\u00e7\u00e3o de \u201cInoc\u00eancia\u201d. Se toparem com esse filme em alguma locadora de filmes de arte, vejam imediatamente. \u00c9 assombroso e assombrador.<br \/>\nLivros: Depois de terminar o maravilhoso \u201cO Terceiro Tiro\u201d, aventura surrealista cruel, escrita pelo irland\u00eas Flann O\u2019Brien em 1933, estou saboreando aos poucos o estilo \u00fanico de Truman Capote em \u201cOs C\u00e3es Ladram\u201d, feito de textos curtos sobre pessoas e lugares que o afetado e genial escritor conheceu ao longo da vida. E tamb\u00e9m estou me divertindo com \u201cO Mochileiro das Estrelas\u201d, de Douglas Adams. Adoro fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, e nunca tinha lido esse cl\u00e1ssico. Chegou a hora.<br \/>\nMais livros: Estamos concluindo um livro sobre os Satyros, longo depoimento que Ivam e Rodolfo concederam a mim no primeiro semestre. Vai ser lan\u00e7ado em breve pela editora Imprensa Oficial.<br \/>\nUfa!<\/p>\n<p>Escrito por Alberto Guzik \u00e0s 11h36<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cInoc\u00eancia\u201d tem entre seus protagonistas dois imigrantes ilegais que sofrem todas as press\u00f5es que essa gente pode sofrer. Nos ensaios, temos falado muito sobre estrangeiros, sobre o que \u00e9 ser estrangeiro. 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