{"id":188,"date":"2006-07-13T20:00:49","date_gmt":"2006-07-13T20:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/?p=188"},"modified":"2021-09-29T14:49:20","modified_gmt":"2021-09-29T14:49:20","slug":"mais-sobre-inocencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/index.php\/2006\/07\/13\/mais-sobre-inocencia\/","title":{"rendered":"Mais sobre &#8220;Inoc\u00eancia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Muito trabalho e pouco tempo. Queria estar em condi\u00e7\u00f5es de blogar muito mais, mas meus dias est\u00e3o curtos para tudo que tenho de fazer. E h\u00e1 Inoc\u00eancia. Meu Deus, Inoc\u00eancia! Dea Loher \u00e9 uma dramaturga de gigantesca estatura. N\u00e3o digo isso porque sou amigo dela nem porque a conhe\u00e7o pessoalmente. Sim, tenho a honra de estar entre os conhecidos da autora laureada com o Premio Brecht de 2005 (1) . Mas, t\u00edmida ela e t\u00edmido eu, n\u00e3o somos propriamente amigos. A gente se adora, se respeita, mas n\u00e3o se estabeleceu nunca uma intimidade real, aquela que permite a amizade, entre n\u00f3s.<br \/>\nEnt\u00e3o, se digo que ela tem uma gigantesca estatura, \u00e9 porque eu, cr\u00edtico, jornalista, ator, diretor, escritor, do alto da minha experi\u00eancia de mais de cinco d\u00e9cadas de palco, sinto isso profundamente. H\u00e1 poucos autores no mundo hoje que concentram tanta seiva humana naquilo que escrevem. Disc\u00edpula de Heiner Muller (2) , de quem tamb\u00e9m foi amiga, Dea escreve uma dramaturgia contempor\u00e2nea, fragmentada, de tra\u00e7os nitidamente p\u00f3s-modernos. Mas ao mesmo tempo inscreve-se na tradi\u00e7\u00e3o articulada por uma linhagem ilustre, e seus antecessores s\u00e3o Georg Kaiser (3) , e mais especialmente Bertolt Brecht, e Muller, sem d\u00favida.<br \/>\nMas ao contr\u00e1rio desses dois monstros sagrados do teatro alem\u00e3o, as pe\u00e7as de Dea Loher n\u00e3o s\u00e3o exclusivamente voltadas para a reflex\u00e3o e a provoca\u00e7\u00e3o ao intelecto do p\u00fablico. A escritora b\u00e1vara rega suas cenas e personagens com uma seiva humana contagiante. Inoc\u00eancia \u00e9 a prova cabal disso. Como ocorre com A vida na Pra\u00e7a Roosevelt, v\u00e1rias hist\u00f3rias que se cruzam, e por meio delas a dramaturga examina os conceitos de inoc\u00eancia e culpa. Os Satyros est\u00e3o mergulhados agora na cria\u00e7\u00e3o de Inoc\u00eancia, contaminados por essa escrita poderosa, por personagens riqu\u00edssimas, como a sra. Habersatt, que invade casas de gente que n\u00e3o conhece para pedir perd\u00e3o por crimes que ela n\u00e3o cometeu, mas que afetaram essas pessoas, ou como a sra. Zucker, que inferniza a vida da filha, Rosa, que trabalha com entregas em domic\u00edlio, e do genro, Franz, que depois de muito tempo desempregado arrumou trabalho em uma funer\u00e1ria. E h\u00e1 tamb\u00e9m Fadoul e El\u00edsio, imigrantes ilegais, que se envolvem com Absoluta, stripteaser cega que trabalha no Planeta Azul. E temos tamb\u00e9m Ella, uma fil\u00f3sofa perturbada, que tenta dar um sentido ao mundo, e Helmut, seu marido, joalheiro que jamais diz palavra.<br \/>\nO exerc\u00edcio do teatro \u00e9 um aprendizado cotidiano de vida. O processo de cria\u00e7\u00e3o de Inoc\u00eancia j\u00e1 apresenta alguns caminhos muit\u00edssimo promissores. O texto dif\u00edcil, sombrio, dotado de escassas parcelas de esperan\u00e7a, nos afeta e mexe conosco. Mas n\u00e3o no sentido de nos dar medo de enfrent\u00e1-lo. Deixa-nos \u00e9 com mais vontade ainda de encarar o problema. E desta vez estou em um \u00e2ngulo privilegiado como observador. Como vou interpretar Helmut, o joalheiro calado, n\u00e3o preciso passar horas e horas trabalhando para decorar o texto. O trabalho \u00e9 em outro plano, f\u00edsico, e vai surgir mais durante o processo do que na solid\u00e3o de minha casa. N\u00e3o ser\u00e1 resultado de um embate pessoal meu com o texto mas de minha inser\u00e7\u00e3o no cadinho da cria\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 sendo conduzida por Rodolfo Garc\u00eda V\u00e1zquez com a acuidade que lhe \u00e9 costumeira e com uma grande integra\u00e7\u00e3o do elenco, basicamente o mesmo que est\u00e1 junto h\u00e1 quase um ano no palco, fazendo A Vida na Pra\u00e7a. Estou apaixonado por Inoc\u00eancia. E o fato de n\u00e3o ter que me preocupar com o texto a ser decorado me permite prestar muito mais aten\u00e7\u00e3o no processo de meus colegas, na maneira pela qual eles est\u00e3o encaminhando suas cria\u00e7\u00f5es. Bem, por agora \u00e9 isso. Sentia que precisava falar um pouco melhor dessa fascinante aventura em que estamos mergulhados, e j\u00e1 o fiz.<br \/>\nPara terminar, n\u00e3o posso deixar de observar como \u00e9 engrandecedor trabalhar com esse elenco, integrado pelo sempre instigante e genial Ivam Cabral, e por uma turma afiad\u00edssima: \u00c2ngela Barros (4) , Soraya Saide (5), Fabiano Machado (6), Cl\u00e9o de Paris (7) , Laerte Kessimos, Tatiana Pacor (8), Nora Toledo (9), Daniel Tavares (10), aos quais se unem ainda a poderosa Silvanah Santos (11) e o jovem e muito talentoso Rui Xavier (12). Que Dionisos nos aben\u00e7oe.<\/p>\n<p>Escrito por Alberto Guzik \u00e0s 20h02<\/p>\n<p>(1) Pr\u00eamio Brecht. Bertolt-Brecht-Literaturpreis. Pr\u00eamio liter\u00e1rio dos mais prestigiosos da Alemanha. Entregue a cada 3 anos por um artista que se destaca pelo conjunto de sua obra. Al\u00e9m do prest\u00edgio, h\u00e1 uma dota\u00e7\u00e3o de 15 mil euros.<br \/>\n(2) Heiner Muller ( 1929\/1995). Dramaturgo e escritor alem\u00e3o. Discipulo e seguidor de Bertold Brecht. Sua obra \u00e9 uma constante reflex\u00e3o sobre a Hist\u00f3ria e a Pol\u00edtica, dialogando e desconstruindo a tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria numa constru\u00e7\u00e3o que \u00e9 \u00e9pica, mas tamb\u00e9m \u00e9 p\u00f3s-moderna.<br \/>\n(3) Georg Kaiser ( 1878\/1945) Escritor e dramaturgo alem\u00e3o. Um dos expoentes do chamado expressionismo alem\u00e3o, teve de fugir da Alemanha em 1933. Foi para Argentina e depois para It\u00e1lia, onde morreu.<br \/>\n(4) Angela Barros \u2013 Teatrop\u00e9dia<br \/>\n(5) Soraya Saide<br \/>\n(6) Fabiano Machado<br \/>\n(7) Cl\u00e9o de Paris \u2013 Teatrop\u00e9dia<br \/>\n(8) Tatiana Pacor<br \/>\n(9) Nora Toledo \u2013 Teatrop\u00e9dia<br \/>\n(10) Daniel Tavares \u2013 Teatrop\u00e9dia<br \/>\n(11) Silvanah Santos \u2013 Teatrop\u00e9dia<br \/>\n(12) Rui Xavier \u2013 Teatrop\u00e9dia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito trabalho e pouco tempo. Queria estar em condi\u00e7\u00f5es de blogar muito mais, mas meus dias est\u00e3o curtos para tudo que tenho de fazer. E h\u00e1 Inoc\u00eancia. Meu Deus, Inoc\u00eancia! Dea Loher \u00e9 uma dramaturga de gigantesca estatura. N\u00e3o digo isso porque sou amigo dela nem porque a conhe\u00e7o pessoalmente. 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