{"id":180,"date":"2006-07-04T15:11:04","date_gmt":"2006-07-04T15:11:04","guid":{"rendered":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/?p=180"},"modified":"2021-09-24T15:13:20","modified_gmt":"2021-09-24T15:13:20","slug":"a-dor-de-dea-no-palco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/albertoguzik.org.br\/index.php\/2006\/07\/04\/a-dor-de-dea-no-palco\/","title":{"rendered":"A dor de Dea no palco"},"content":{"rendered":"<p>Estamos, nos Satyros, mergulhando mais uma vez no universo de Dea Loher. Come\u00e7amos a ensaiar Inoc\u00eancia, pe\u00e7a que Dea escreveu em 2004, antes de sua Vida na Pra\u00e7a Roosevelt, portanto, e que foi at\u00e9 hoje seu maior sucesso na Alemanha. Dea transmite a dor de viver com uma intensidade que poucos artistas alcan\u00e7am. \u00c9 um assombro sua sensibilidade. Sempre fico espantado com a profundidade de seus textos, cujas camadas mais fundas s\u00f3 se revelam depois de muitas e muitas e muitas leituras.<br \/>\nMais uma vez temos uma s\u00e9rie de hist\u00f3rias que correm paralelas. H\u00e1 dois imigrantes ilegais e uma stripteaser cega, uma fil\u00f3sofa revoltada e loquaz e meu marido, um ourives silencioso, uma diab\u00e9tica, sua filha e seu genro, preparador de cad\u00e1veres, uma senhora que visita fam\u00edlias que perderam entes queridos para se desculpar pelas a\u00e7\u00f5es de seu filho, um assassino serial. E mais uma por\u00e7\u00e3o de personagens que vivem situa\u00e7\u00f5es limite.<br \/>\nN\u00e3o por acaso o suic\u00eddio e a morte s\u00e3o quest\u00f5es recorrentes no texto. Como d\u00f3i mergulhar na dor humana, \u00e9 o que penso, no limiar deste novo salto. Mas haver\u00e1 outra fun\u00e7\u00e3o para o artista hoje? N\u00e3o lhe resta apenas expressar, do modo mais candente, aquilo que v\u00ea e vive? Haver\u00e1 lugar para cantar beleza e paz e hedonismo nestes tempos que correm? Isso a tev\u00ea oferece de sobra. E Hollywood tamb\u00e9m. N\u00f3s, que queremos dizer alguma coisa, n\u00e3o podemos cair nessa arapuca. Encaremos a dor. Encaremos a alem\u00e3 Dea Loher, a dramaturga capaz de trasnformar a dor em poesia e beleza. Que triste beleza.<\/p>\n<p>Escrito por Alberto Guzik \u00e0s 11h57<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Os pequenos mendigos da pra\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Eles s\u00e3o in\u00fameros e est\u00e3o sempre ali, nas imedia\u00e7\u00f5es dos teatros e dos bares da pra\u00e7a Roosevelt. Os meninos miser\u00e1veis que vestem farrapos e pedem esmolas. E todo mundo finge que n\u00e3o est\u00e1 aocntecendo nada. Poucos, como o corajoso e generoso Ivam Cabral, t\u00eam a coragem de falar com eles. De se aproximar. Eles causam um constrangimento vis\u00edvel. Os teatros e os bares atraem um p\u00fablico bacana, antenado com o experimental, com buscas de novas linguagens. Foi esse p\u00fablico que mudou a cara da pra\u00e7a, atra\u00eddo pela movimenta\u00e7\u00e3o incessante dos dois Satyros, do La Barca, dos outros points da pra\u00e7a, que em breve vai receber a nova sede dos Parlapat\u00f5es, tamb\u00e9m. \u00c9 esse p\u00fablico que atrai os pequenos miser\u00e1veis, que dizem \u201cTio, me d\u00e1 uma moeda\u201d, esticando suas m\u00e3os sujas. A gente se retrai. \u201cHoje eu n\u00e3o tenho\u201d. Sempre \u201cHoje eu n\u00e3o tenho\u201d. Por dentro, revolta. Raiva do pa\u00eds, dos governos, das elites, de uma das maiores concentra\u00e7\u00f5es de renda do mundo. O menino que pede esmolas esta semana (eles parecem se revezar) usa sand\u00e1lias havaianas apesar das noites frias, tem os dedos dos p\u00e9s fininhos e brancos, e olhos assustadoramente castanhos. Circula por ali com desenvoltura, sem nenhum constrangimento. Como se soubesse que \u00e9 direito seu tamb\u00e9m, pequeno mendigo que causa embara\u00e7o no p\u00fablico indie, estar ali. A pra\u00e7a \u00e9 igualmente dele. E venho pra casa pensando na luz assustadora daqueles olhos castanhos.<\/p>\n<p>Escrito por Alberto Guzik \u00e0s 12h31<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos, nos Satyros, mergulhando mais uma vez no universo de Dea Loher. Come\u00e7amos a ensaiar Inoc\u00eancia, pe\u00e7a que Dea escreveu em 2004, antes de sua Vida na Pra\u00e7a Roosevelt, portanto, e que foi at\u00e9 hoje seu maior sucesso na Alemanha. Dea transmite a dor de viver com uma intensidade que poucos artistas alcan\u00e7am. \u00c9 um assombro sua sensibilidade. 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